Por que estudar a Literatura por períodos?

Sílvia M L Mota

Ao se estudar o conjunto de obras de um determinado país, a primeira tendência manifesta-se pela associação da história da Literatura à história dos acontecimentos, como se as manifestações literárias estivessem adstritas aos fatos sociais. Ressalta-se, entretanto, que o estudo da Literatura não é um apêndice da História.

Ensina Afrânio Coutinho, que o fato literário tem natureza estética e, por tal motivo, deve ser considerado histórico, pois que acontece em tempo e espaço determinados. Eis as suas palavras: “Com ser de natureza estética, o fato literário é histórico, isto é, acontece num tempo e num espaço determinados. Há nele elementos históricos, que o envolvem como uma capa e o articulam com a civilização - personalidade do autor, língua, raça, meio geográfico e social, momento; e elementos estéticos, que constituem o seu núcleo, imprimindo-lhe ao mesmo tempo características peculiares, que o fazem distinto de todo outro fato da vida: tipo de narrativa, enredo, motivos, ponto de vista, personagem, linha melódica, movimento, temática, prosódia, estilo, ritmo, métrica, etc. [...] Esses últimos elementos formam o ‘intrínseco’, enquanto os primeiros formam o ‘extrínseco’.”

A partir desse discurso, o estudioso foge da abordagem positivista, que estudava o fenômeno literário a partir de valores extrínsecos como a biografia do autor, o contexto histórico no qual este estava inserido, dentre outros, sem levar em consideração os fatores intrínsecos do mesmo.

No Brasil, Afrânio Coutinho foi um dos primeiros a erguer com mais galhardia a bandeira de uma crítica universitária em que o estudo do texto, da retórica, das formas, dos elementos construtivos da obra aparecessem como objeto principal da crítica. Depreende-se, pois, que no fato literário encontram-se aspectos da personalidade do autor, a sua língua, o seu meio geográfico e social, bem como o momento histórico no qual se insere. Além disso, essas variáveis acabam por imprimir aspectos estéticos como o enredo, o tipo de narrador, a temática e os personagens, entre outros.

A utilização do método abalizado no sistema periodológico, não desconsidera os referenciais cronológicos, mas esse é orientado pelo predomínio dos valores estéticos específicos em determinada época e, por essa razão, não é adequado que se demarquem datas balizadoras para o seu início ou fim, pois os períodos se interpenetram, seja através de diálogos ou de contraposições.

 

Referência

COUTINHO, Afrânio. A Literatura no Brasil. Rio de Janeiro: Editorial Sul Americana S.A.,1955. p. 22.

Reeditado em 14 de julho de 2018.

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