AULA 5

OUTRAS FORMAS DE NARRAR – O CONTO

 

O QUE É MESMO O ROMANCE?

 

  • - História de grande extensão com grande número de personagens, sendo que muitas são bem desenvolvidas. Há grande preocupação com a psicologia das personagens, a verossimilhança, a coerência narrativa, temporalidade, dentre outras características.
  • Uma consulta ao "Novo Dicionário Aurélio da Língua Portuguesa", cujo verbete romance apresenta a seguinte definição, no âmbito literário: "Descrição longa das ações e sentimentos de personagens fictícios, numa transposição da vida para um plano artístico."

 

Joaquim Maria Machado de Assis, cronista, contista, dramaturgo, jornalista, poeta, novelista, romancista, crítico e ensaísta, nasceu na cidade do Rio de Janeiro em 21 de junho de 1839. Filho de um operário mestiço de negro e português, Francisco José de Assis, e de D. Maria Leopoldina Machado de Assis, aquele que viria a tornar-se o maior escritor do país e um mestre da língua.

 

É possível contar histórias em prosa que compreendam personagens, utilizando outras formas que não sejam o romance. A distinção às vezes é sutil. Gide, por exemplo, preferia chamar de “narrativas ou relatos (récits) algumas de suas obras (O imoralista, A porta estreita, Isabelle) porque nelas a história é como que purificada, as personagens são numerosas, a temática é concentrada. (...). Sem contar essas discriminações particulares, a tradição reconhece ALGUMAS OUTRAS FORMAS DE NARRATIVAS além do romance, das quais é possível extrair leis estéticas.

 

  • NOVELA
  •  CONTO
  •  CRÔNICA
  •  FÁBULA
  •  EPOPEIA
  •  ENSAIO

 

Uma boa receita – Marcos Rodrigues

 

Pequeno, guloso e curioso, perguntei a minha mãe como fazer panqueca. Ela me disse para misturar bem uma xícara de leite com dois ovos e mais uma xícara de farinha de trigo. Uma pitada de sal, duas colheres de manteiga e pronto. Derreta um pouquinho de manteiga numa frigideira quente, derrame uma concha da mistura na frigideira e espalhe sobre a superfície quente. Um pouco de um lado e depois do outro. Eis a panqueca.

Anos mais tarde, ouvi meu pai perguntar a um guarda de estacionamento onde havia vaga. Ele disse para meu pai ir devagar pelos corredores até encontrar um lugar vazio, ali é a vaga. Uma resposta universal para vagas em qualquer estacionamento do mundo! Gostei muito.

Assim, há tempos, convivo com receitas e algoritmos. Existem sequências de operações que, quando executadas da mesma maneira, nas mesmas circunstâncias, levam sempre a um certo resultado esperado.

Vivi com isso por muito tempo até que reencontrei um velho amigo uruguaio. Maduro e bem rodado, meio cansado de certas coisas da vida. Em meio à conversa que mergulhou noite adentro, ele me perguntou se eu queria uma boa receita. Eu disse sim, claro, do quê?

Como, do quê? É uma boa receita. Mania infernal esta, de que tudo tem que ter um propósito, tem que ser pra alguma coisa, disse ele.

Existem boas receitas. Simplesmente boas. Às vezes resultam numa coisa, às vezes noutras. Se quiser uma boa, anote aí. Eu anotei.

Primeiro, com antecedência de meia hora, corte umas rodelas de laranja, bem finas, e as deixe imersas no Grand Marnier ou lambuzadas com um pouco de mel. Corte pedaços finos de maçã verde, ou de pêssego, e algumas rodelas finas de uva branca sem caroço, mas podem ser pedaços finos de pera. Quem sabe umas amoras também? Em uma jarra grande misture as lascas de frutas com uma garrafa de Chardonnay gelado ou outro branco seco qualquer. Adicione alguns cubos de gelo, a gosto. (...). Por fim, adicione uma garrafa de Prosecco gelado, ou qualquer outro espumante. Eis aí a primeira parte, o Clericot¹.

Segundo, é preciso uma tarde ensolarada de verão ou primavera, mas pode ser de outono também. É desejável, mas não indispensável, uma brisa fresca. Convém que o lugar permita uma visão de horizonte largo. Verde é melhor, mas também não é preciso. Pode ser mar. Pode até ser uma paisagem urbana ou um quintal. Até mesmo destes pequenos, com varal.

Alto lá, eu disse, está tudo muito solto, muito aberto. Muito incerto. Me incomoda. Já me volta ao peito a juvenil e sombria sensação de que comigo as coisas não vão dar certo.

Fique frio, disse ele. Lembre-se que não há o que esperar. Ademais, não é tudo solto assim não. Anote aí. Até o fim.

Terceiro, em seu aparelho de som, pode ser destes simples mesmo, ponha "On the Sunny Side of the Street", com Willie Nelson. Ou "Slow Boat to China", com Louis Armstrong. Ou mesmo "Let´s Misbehave", com Elvis Costello. Na verdade, pode ser qualquer música. É a gosto da pessoa. Melhor que seja baixo, mas pode ser alto também. Veja lá.

Quarto, tenha a seu lado uma mulher interessante. Nada de muito mais, mas absolutamente nada de menos.

Ele encerrou tudo com um você vai gostar.

Não me lembro como se perdeu o assunto naquela noite, mas as anotações estão aqui. Talvez ele não tenha falado em sorte porque a tem.

Não sei, preciso pensar um pouco no assunto.

 

*Marcos Rodrigues é engenheiro civil, professor titular da Poli - USP e dedica-se também à literatura.

 

¹Os ingleses, em meados do século XIX, no Punjab, na Índia, inventaram o Claret Cup. Este refrescante drinque era preparado com um gelado Claret (vinho de Bordeaux, França) com frutas e outros ingredientes. Esta bebida foi mais tarde levada para o Uruguai onde sofreu transformações, até no nome. Virou Clericot, pronunciado clericô.

 

CONCEITO DE CONTO

 

Muita gente define o conto como sendo uma narrativa pequena. Mas a definição precisa não é esta. A chave para se entender o conto, enquanto gênero, está na concentração de sua trama. Não é possível falar de vários assuntos ou apresentar várias situações dentro de um conto. Ele trata, geralmente, de uma situação, a qual se desenrola sem pausas e sem recuos.

O seu foco é levar o leitor ao desfecho, que é, também, o clímax da história. É o momento com o máximo de tensão. Neste momento final, quase não há descrições.

No conto, deve existir um cuidado na seleção de tudo aquilo que será apresentado ao leitor. Tudo deve ser muito simples, sem grandes complicações psicológicas e sem grandes peripécias.

 

O conto é uma obra de ficção, um texto ficcional. Cria um universo de seres e acontecimentos de ficção, de fantasia ou imaginação. Como todos os textos de ficção, o conto apresenta um narrador, personagens, ponto de vista e enredo.

Classicamente, diz-se que o conto se define pela sua pequena extensão. Mais curto que a novela ou o romance, o conto tem uma estrutura fechada, desenvolve uma história e tem apenas um clímax. Num romance, a trama desdobra-se em conflitos secundários, o que não acontece com o conto. O conto é conciso.

A HISTÓRIA DO CONTO

 

Surgiu com as narrativas religiosas. As pequenas histórias bíblicas fazem parte do nascimento do conto.

Depois de anos, muitas narrativas religiosas foram, aos poucos, perdendo suas características, pois o folclore inseriu, em tais narrativas, dragões, seres fantásticos, fadas. Dessa forma, os contos de fadas e as fábulas vão absorver os elementos do folclore.

A palavra conto deriva do verbo contar, que tem sua origem em computare, isto é, enumerar objetos ou enumerar acontecimentos. Na Idade Média, contar era a mesma coisa que enumerar fatos ou relatar algo, construindo, assim, narrativas. Só, no século XVI, ganha, especificamente, um sentido literário, caracterizando-se como gênero.

 

A UNIDADE DO CONTO

 

O conto não fala de várias situações. Ele gravita em volta de um só conflito. Isto lhe garante unidade de ação. E, de onde surge o conflito? Ora, surge do embate entre as personagens. A respeito do conflito do conto, tudo converge para um único núcleo. O drama é só um, por isso não há grandes questionamentos.

 

No conto, o passado e o futuro não interessam. O que conta é o momento presente. Por isso, a personagem esgota, em apenas algumas horas, todas as suas potencialidades.

 

O ESPAÇO DO CONTO

 

À unidade de ação corresponde a unidade de espaço. O que isto significa? Ora, apenas um ambiente se configura como palco do conflito. Ali está concentrada a dramaticidade.

 

O TEMPO DO CONTO

 

Tudo, neste tipo de narrativa, se passa em um tempo curtíssimo. São, apenas, algumas horas ou dias.

Graças ao critério da brevidade, pode-se eliminar a incerteza entre o conto e o romance. O conto se distingue do romance, por ser um relato curto. (...). Ao conto, aplicar-se-iam regras de concentração (assunto único, personagens pouco numerosos etc.), narração pura (verídica ou fictícia) (STALLONI, 2003, p. 118).

 

O CONTO E O LEITOR

 

O leitor é o foco do conto. Ele tem que ser impactado pela história que vai ler. Para ser interessante, o conto tem que ter um tom que desperte no leitor uma única impressão, a qual pode ser: pavor, piedade, ódio, simpatia, ternura ou indiferença.

O conto sempre opera com ação. Não opera com caracteres. Isto para despertar essa impressão única no leitor.

 

O conto tem como foco um tom que desperta no leitor uma única impressão. Os conflitos apresentados funcionam como espelho para o leitor. Cria-se um movimento de identificação. Por isso, o contista se esforça para criar um drama que desperte, de forma quase imediata, um sentimento forte no leitor.

 

OS PERSONAGENS DO CONTO

 

Perímetro fechado.

A LINGUAGEM DO CONTO

 

Se a compreensão de um conto deve ser imediata, o leitor não pode se deparar com muitas metáforas. A linguagem, portanto, deve ser objetiva. Não há espaço para segundas intenções nas palavras. Não há espaço para obscuridades. As coisas são da forma como são ditas.

 

A ESTRUTURA DO CONTO

 

No conto, a trama é linear e objetiva. O tempo predominante é o cronológico, sendo marcado regularmente. O leitor vê os fatos acontecerem com a mesma sequência, com a mesma continuidade da vida real. O andamento é a ordem lógica da vida, caminhando para frente.

Por outro lado, o conto é um gênero literário que apresenta uma grande flexibilidade, podendo se aproximar da poesia e da crônica. Os historiadores afirmam que os ancestrais do conto são o mito, a lenda, a parábola, o conto de fadas e mesmo a anedota.

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