AULA 1

O QUE É LITERATURA?

 

Discutir alguns conceitos que nos levarão a um conceito final do que seja a Literatura.

Munidos de uma angústia produtiva ou de uma curiosidade acadêmica elaborar ou criar uma perspectiva em relação ao termo Literatura que possa ser resolvida e nos deixar um legado que nos possa ajudar.

Na verdade, essa discussão pontua a nossa vida estudantil e acadêmica.

Quando se começa a pensar no que seja Literatura, pensa-se que tudo o que é escrito constitui-se Literatura. Há uma Literatura médica, uma literatura jurídica, uma literatura culinária, etc...

Como definir o que seja objeto do nosso estudo?

A primeira etapa dessa investigação conceitual recai sobre dois termos específicos que não são nossos desconhecidos.

ETAPAS                                                               CONCEITOS E RELAÇÕES:

 

                                               =>                       CONSTRUÇÃO

1- Denotação e conotação

2- Texto literário e não literário

3- Palavra

4-Relações dialógicas e

5- Relação texto, autor e leitor

6- Literatura e a História

 

1 DENOTAÇÃO E CONOTAÇÃO

 

1 Exemplo: art. 5 da Constituição Federal de 1988

Posso retirar conclusões variáveis e relativas ao meu entendimento a depender da ordem e do contexto em que desejasse falar?

Resposta: Não.

Cada uma dessas palavras utilizadas na Constituição são essenciais e não podem ser modificadas por ninguém. Cada palavra diz exatamente o que quer dizer.

 

2 Exemplo: Onomatopeia

Significado da palavra onomatopeia

s.f. Vocábulo que procura imitar determinados sons ou ruídos naturais. Não é uma reprodução fiel do som ou ruído, mas sua interpretação aproximada com os sons existentes em uma língua. Geralmente, é um monossílabo repetido, com alteração vocálica ou não. O “fru-fru” de um vestido, o “zum-zum” da abelha e o “tic-tac” do relógio são exemplos de onomatopeia. O termo vem de duas palavras gregas que significam criar um nome.

 

3 Exemplo: Mors – Amor – Antero de Quental

 

Esse negro corcel, cujas passadas

Escuto em sonhos, quando a sombra desce,

E, passando a galope, me aparece

Da noite nas fantásticas estradas,

 

Donde vem ele? Que regiões sagradas

E terríveis cruzou, que assim parece

Tenebroso e sublime, e lhe estremece

Não sei que horror nas crinas agitadas?

 

Um cavaleiro de expressão potente,

Formidável, mas plácido, no porte,

Vestido de armadura reluzente,

 

Cavalga a fera estranha sem temor:

E o corcel negro diz: "Eu sou a morte!"

Responde o cavaleiro: "Eu sou o Amor!"

 

O que queria dizer Antero de Quental quando revela a identidade do corcel e quando nos diz quem é o cavaleiro¿ Ora, nesse momento, ou a partir do modo como esse texto é trabalhado, cheio de incertezas e de metáforas, tira-nos aquela certeza que tínhamos tão claramente colocada no artigo de lei ou na definição da palavra onomatopeia. No fim, o próprio autor acaba nos revelando que esse corcel que desabaladamente corre nos seus sonhos, passando a galope, em noites fantásticas, por regiões sagradas... é a Morte e aquele cavaleiro no fim é, na verdade, o Amor.

O que deseja o autor dizer ao elaborar esse poema? Que amor e morte andam juntos? Que amor e morte são extremamente potentes, avassaladores e irrequietos, mas que, mesmo assim, caminham juntos?

Se sou capaz de escolher um poema producente, a sensação que nos resta após a leitura é totalmente diferente daquela sensação que restava em nós após a leitura do artigo de lei e da definição da palavra.

 

4 Exemplo: Lua cheia, de Cassiano Ricardo

 

Boião de leite

Que a noite leva

Com mãos de treva pra não sei quem beber,

E, que, embora levado

Muito devagarinho,

Vai derramando pingos brancos pelo

Caminho.

 

O título me diz: “lua cheia”, mas onde está a lua cheia no poema?

Temos uma transcendência de significados.

- Boião é um tacho grande cheio de leite – o leite é branco – eis a própria lua.

Boião – lua cheia

Leite - lua

“Com mãos de treva” – A noite tem mãos? É uma escuridão que alcança – envolve

Muito devagarinho – a noite é um período

“Pingos brancos” – as estrelas

 

Quando leio esse poema, percebo que há um significado que reside por detrás do verdadeiro significado das meras palavras, da forma como foram colocadas. E isso me permite mostrar o quanto, nesse texto, como leitora, me intrometi nesse texto para cavar a superfície e chegar ao verdadeiro significado.

 

Chegamos ao significado de conotação e denotação.

 

A conotação remete para as ideias e as associações que se acrescentam ao sentido original de uma palavra ou expressão, para completa-las ou precisar a sua correta aplicação num dado contexto. Por outras palavras, tudo aquilo que podemos atribuir a uma palavra para além do seu sentido imediato e dentro de certa lógica discursiva entra no domínio da conotação – SENTIDO FIGURADO.

 

A denotação é aquilo a que uma palavra ou expressão se aplica no seu texto. Normalmente, opõe-se à conotação, a palavra é utilizada com seu sentido comum (o que aparece no dicionário) dizemos que foi empregada denotativamente – SENTIDO LITERAL.

 

DENOTAÇÃO - Linguagem Informativa – objetiva, apresentando dados preciso como, por exemplo, datas e nome de escritores. Trata-se uma linguagem direta e impessoal. Não há nenhum tipo de exploração de imagens ou figuras de linguagem.

CONOTAÇÃO - Linguagem subjetiva – multiplicidade de significações opondo-se à linguagem informativa.

 

DENOTAÇÃO - É a linguagem informativa, comum a todos. Tem por objetivo expressar um conhecimento prático, científico. Neste tipo de linguagem, as palavras são sempre empregadas em sentido real.

 

CONOTAÇÃO - É a linguagem afetiva, individual e subjetiva. Tem por objetivo a apreciação estética. Apresenta o uso da palavra no seu sentido figurado ou poético.

Apreciação estética = Emprego artístico da palavra.

 

2 TEXTO LITERÁRIO E TEXTO NÃO-LITERÁRIO

 

1 Exemplo:

S. Mateus, 10 de Setembro de 2002

Meu caro Hugulino:

Bem sei que é mais moderno enviar um e-mail, mas nem tu tens Internet, nem eu perdi a mania de escrever cartas. E, depois, tempo é o que não me falta.

Indo directamente ao que interessa: a festa é no dia 5 de Outubro, na casa das tulipas como da outra vez. Presentes, entre outras vão estar a Pezinhos-de-lã, a Lô Proveta, a Sidónia dos caracóis e, claro está, aquela por quem tanto suspiras. É preciso enviar-te um convite?

Há actividades surpresa, e eu hei-de descobrir onde o meu avô guarda a chave da despensa. O resto ficará, como sempre, dependente da imaginação de cada um.

E pronto. Sei que não és de muitas leituras. Fico-me por aqui, embora isto pareça mais um telegrama do que uma carta.

Um grande abraço do sempre teu amigo,

Joaquim

P.S.:

Traz aquela tua vizinha morena.

 

Todo o texto orbita em relação ao convite que é feito por Joaquim ao Hugulino.

 

2 Exemplo: Correio – Manuel Alegre

Chegam cartas. Chegam pedaços do meu país.

Chegam vozes. Chega um silêncio que me diz as revoltas

as lágrimas

os cansaços.

Chegam palavras que me apertam nos seus braços.

Chegam notícias do meu país.

………

Chegam palavras com guitarras de Lisboa.

Chegam palavras que me sentam a sua mesa para falar

das nossas coisas: trigo

e tristeza. Trevo e sal.

Chegam palavras que me trazem vinho e broa.

Chegam palavras que me trazem Portugal.

 

Ao ler esse poema posso ver que o elemento central do texto são as cartas que chegam pelo correio. Mas, as cartas, na medida em que veem do país são “pedaços”. As cartas que dizem o que se passa com seus autores são “vozes”, que também podem ser “silêncios”, em relação às revoltas quando elas não chegam.

As cartas são “palavras que me apertam nos seus braços” = aconchego

“palavras com guitarras”

“palavras sentam à mesa” – cartas são conversas - sentar à mesa imaginariamente

“trazem vinho e broa” – palavras que atiçam a memória

“que me trazem Portugal”

Na realidade, percebo que há um desdobramento de significado, que há mudança no que diz respeito à perspectiva de cada palavra aplicada.

 

3 Exemplo:

Débora Falabella engata namoro com Daniel Alvim

11/02/2011 15h00 • Thiago Manholer

Separada do músico Chuck Hipólito desde o fim do ano de 2010, a atriz Débora Falabellaparece ter engatado um romance sério com o ator Daniel Alvim, ex-namorado das atrizesPaula Burlamaqui e Mel Lisboa. Segundo a colunista Patrícia Kogut, do jornal O Globo, amigos garantiram que o clima entre eles é de total paixão.

Atualmente, Débora faz parte do elenco da novela das sete Ti-ti-ti, da Globo.

 

Qual o legado deixado após a leitura desse texto¿

- Namoro de Débora com Daniel.

 

4 Exemplo:

Tanto do meu estado me acho incerto,

Que em vivo ardor tremendo estou de frio;

Sem causa, juntamente choro e rio,

O mundo todo abarco e nada aperto.

 

É tudo quanto sinto, um desconcerto;

Da alma um fogo me sai, da vista um rio;

Agora espero, agora desconfio,

Agora desvario, agora acerto.

 

Estando em terra, chego ao céu voando,

Numa hora acho mil anos, e é de jeito

Que em mil anos não posso achar uma hora.

 

Se me pergunta alguém por que assim ando

Respondo que não sei; porém suspeito

Que só porque vos vi, minha senhora.

 

No último verso o poeta revela sua paixão.

No texto jornalístico a paixão fica mais óbvia.

O poeta trata do enamoramento de forma subjetiva, multissignificativa ou plural, com capacidade sensorial e interpretativa do texto, muito profundos.

 

O Texto não literário é informativo, objetivo. Ele apresenta uma linguagem denotativa, direta e impessoal. Está preso à realidade, a algo que pode ser comprovado como verdade. A nossa comunicação de todos os dias, ou seja, a nossa fala do cotidiano, com nossos amigos, com nossa família ou no nosso trabalho, é um exemplo de texto não literário. São textos que visam, apenas, a informação e a ação.

 

O Texto Literário distingue-se, nomeadamente, pelo facto de transformar a realidade, servindo-se dela como modelo para a arquitetar mundos “fantásticos”, que só existem textualmente e que se estabelecem através da metáfora, da caricatura, da alegoria e pela verossimilhança. Residindo aqui a ficcionalidade patente no Texto Literário. Este é o elemento que mais o diferença do Texto Não Literário.

 

TEXTO LITERÁRIO

- TEM FUNÇÃO ESTÉTICA

- SUA RELEVÂNCIA SE DÁ NO PLANO DA EXPRESSÃO; NÃO IMPORTA APENAS O QUE SE DIZ, MAS COMO SE DIZ

- É INTANGÍVEL, ISTO É, NÃO PODE TER SEUS TERMOS SUBSTITUÍDOS OU SUA ORDEM ALTERADA; ELE É INTOCÁVEL, NÃO PERMITINDO SEQUER SER RESUMIDO

- É CONOTATIVO, OU SEJA, CRIA SIGNIFICADOS NOVOS

- SUA LINGUAGEM É PLURISSIGNIFICATIVA, ISTO É, BUSCA REMETER A VÁRIOS SIGNIFICADOS PARA OS TERMOS QUE USA

 

TEXTO NÃO-LITERÁRIO

- TEM FUNÇÃO UTILITÁRIA

- SUA RELEVÂNCIA SE DÁ NO PLANO DA MENSAGEM

- PODE SER RESUMIDO, SEM PREJUÍZO DE SEU CONTEÚDO OU PLANO DE EXPRESSÃO

- É DENOTATIVO, OU SEJA, REFERENCIAL, ASPIRANDO A SER O MAIS INFORMATIVO POSSÍVEL

- SUA LINGUAGEM BUSCA TRANSMITIR UM ÚNICO SIGNIFICADO PARA OS TERMOS QUE EMPREGA

 

3- Palavra

4-Relações dialógicas e

5- Relação texto, autor e leitor

 

Se elaboro uma mensagem para que outras pessoas a apreendam, se monto um poema ou escrevo um romance, que devem ser lidos pelas pessoas que tirarão deles aquilo que as suas capacidades ou as suas habilidades, naquele momento lhes permitir, percebo que existem partes trabalhando ali.

 

AGENTES DO DISCURSO: aquelas partes que produzem e que recebem; que elaboram e decodificam.

O discurso literário vai ser parte do processo comunicativo e literário, que se baseia na articulação de palavras carregadas de intenção. Ao perceber a intenção do emissor o discurso se realiza.

O discurso, como elemento, ou parte desse processo, é dinâmico. Por isso, posso ter diferentes leituras em diferentes épocas. Isso remete ao texto a noção de plurissignificação – vários significados. Vivências reais ou imaginárias de cada um.

A mola mestra do discurso é a palavra, que também tem uma perspectiva social, porque, na realidade, sustenta ou carrega, ou comunica e esclarece práticas de determinados grupos sociais ou classes sociais e perde sua neutralidade quando inserida num determinado contexto. Ao utilizá-la ou aplicar a ela uma determinada intenção, isso faz com que essa existência se invista de uma determinada tendência. Por outro lado, essas relações dialógicas travadas no momento da leitura ou da comunicação específica, ela estabelece um confronto entre posições assumidas por diferentes sujeitos expressos na linguagem. Na medida em que digo que essa comunicação feita por sujeitos para outros sujeitos, baseadas nas palavras, decifradas em momentos diferentes, temporalmente, podendo ocasionar resultados diferentes, também temporalmente, isso tudo consiste num processo de alguém que direciona para outros alguéns. Na realidade, essa discussão permanente que caracteriza a própria vida, faz da palavra o elemento veicular dessas relações dialógicas.

As relações dialógicas estão sujeitas a processos específicos: seleção e combinação.

 

Seleção e Combinação:

Processo de escolha, no qual as opções assumidas delineiam os valores, a ideologia que preside a produção de discurso. Por isso, é fundamental o leitor perceber, no texto, quem fala e para quem fala. Ao produzir um texto, o autor escolhe e combina o que vai escrever. Aquilo que ele pretende dizer é o que vai estar inserido na voz do narrador. Dessa forma, o texto expõe as opções assumidas e encobre as rejeitadas.

 

6 DISCURSO LITERÁRIO X DISCURSO HISTÓRICO

 

A HISTÓRIA é a vida de cada um de nós. Todos os dias escrevemos a história com nossos atos e valores.

A LITERATURA se apropria desses atos e valores que formam as sociedades de diferentes épocas para dar vida às personagens dentro dos mais diversos contextos. Por isso, a LITERATURA, considerada, por muitos, como arte da palavra, pode ser conceituada como um tipo de discurso que tenta dar conta da história.

 

Assim como a música, a pintura e a dança, a Literatura é considerada uma arte. Através dela temos contato com um conjunto de experiências vividas pelo homem sem que seja preciso vivê-las.

A Literatura é um instrumento de comunicação, pois transmite os conhecimentos e a cultura de uma comunidade. O texto literário nos permite identificar as marcas do momento em que foi escrito.

As obras literárias nos ajudam a compreender nós mesmos, as mudanças do comportamento do homem ao longo dos séculos, e a partir dos exemplos, refletir sobre nós mesmos.

 

 

Ao final desta aula:

1. Aprendemos a diferença entre texto literário e não literário;

2. Conhecemos as características do texto literário;

3. Reconhecemos a literatura como um tipo de discurso.

4. Entendemos a relação autor – texto – leitor.

Exibições: 3

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