ANOTAÇÕES DA AULA 10
MINHAS LEITURAS II


Hoje, vamos trabalhar com a Poesia.

PRODUÇÃO ARTÍSTICA => OBJETO ARTÍSTICO (produto/resultado

ARTISTA INDIVÍDUO X REALIDADE

DIÁLOGO

COMO ENTENDER => CONCEITOS + IMPRESSÕES

ASPECTOS GERAIS => COLOCAÇÕES
ESPECÍFICAS
PROSA <= ESPECIAIS => POESIA
NARRATIVA EU-LÍRICO
(EXTENSÃO MAIS PROLONGADA) DESTACADO
NARRADOR INDIVIDUALIZAÇÃO
PALAVRA=> MUSICAL/ENTONAÇÃO
SENTIMENTO
“ESPAÇO” + REDUZIDO

PERSONAGENS
CENÁRIO
MOVIMENTO PSICOLÓGICO
CIRCUNSTÂNCIAS E VARIÁVEIS

Análise da Poesia

O esforço de quem analisa um texto em prosa é o mesmo de quem analisa um texto lírico (poema). As variações do resultado é que vão mostrar uma especificidade diferente.
Os elementos presentes no texto em prosa são diferentes daqueles que se apresentam no texto lírico.
Partindo de princípios e propostas diferenciados vamos nos deparar com um texto que não tem narrador, mas eus-líricos que funcionam como elemento mediador.
O eu-lírico dialoga com a realidade, mas o faz separadamente. O foco da poesia é muito específico. Trata-se de um processo marcado pela individualização: o eu-lírico e as suas impressões, o eu-lírico e os seus sentimentos, o eu-lírico e suas manifestações.
A palavra tem dupla função – musical/entonação, na medida que a poesia tem uma cadência.
Temos a palavra, que reflete de forma sobremaneira importante e excessivamente pertinente a proposta ou sentimento.
O tom geral do texto poético é o sentimentalismo ou do sentimento individual do eu-lírico, que vai entrar em ação - o tom geral do eu-lírico.
Temos o espaço – é um pouco mais reduzido. Temos textos líricos maiores (poesia épica)

Ao analisar a poesia a postura do autor será contundente.

Ao desconcerto do Mundo - LUÍS DE CAMÕES

[Camões vê o mundo em desconcerto]

Os bons vi sempre passar
no Mundo grandes tormentos;
e pera mais me espantar,
os maus vi sempre nadar
em mar de contentamentos.

[os bons sofrem e os maus têm contentamento]

Cuidando alcançar assim
o bem tão mal ordenado,
fui mau, mas fui castigado:
assim que, só pera mim,
anda o Mundo concertado.

[foi mau e foi castigado]
------------------------------------------

Vós sois ua dama
Das feias do mundo,
De toda a má fama
Sois cabo profundo.

A vossa figura
Não é para ver;
Em vosso poder
Não há fermosura.

Vós fostes dotada
De toda maldade;
Perfeita beldade
De vós é tirada.

Sois muito acabada
De tacha e de glosa;
Pois, quanto a fermosa
Em vós não há nada.

Do grão merecer
Sois bem apartada;
Andais alongada
Do bem-parecer.

Bem claro mostrais
Em vós fealdade;
Não há i maldade
Que não precedais.

De fresco carão
Vos vejo ausente;
Em vós é presente,
A má condição.

De ter perfeição
Mui alheia estais;
Mui muito alcançais
De pouca razão.

Estâncias na medida antiga, que tem duas contrariedades: louvando e deslouvando a dama
Esquema rimático:
4 estrofes com 8 versos
ababcddc
Rima cruzada - versos 1 a 5;
Rima emparelhada -versos 6 e 7;
Rima interpolada no verso 8;
Quanto à escansão (nº sílabas métricas) encontramos a medida velha; isto é, verso de redondilha menor (5)

O tema é a mulher.
Nesta composição poética Camões materializa a dualidade da dama pela leitura múltipla:
Na horizontal, apresenta- se louvada, as suas qualidades positivas são realçadas;
Na vertical, o poeta deslouva-a, mostrando qualidades negativas. É ainda o gosto do trivial e do lúdico que inspiram estas trovas.

A dona Francisca de Aragão, mandando-lhe esta regra que lha glosasse

MOTE
Mas porém a que cuidados?

VOLTA

Tanto maiores tormentos
foram sempre os que sofri
daquilo que cabe em mi,
que não sei que pensamentos
são os para que nasci.
Quando vejo este meu peito
a perigos arriscados
inclinado, bem suspeito
que a cuidadas sou sujeito:
mas porém a que cuidados?

[eu-lírico apaixonado]

OUTRA AO MESMO

Que vindes em mi buscar,
cuidados, que sou cativo
e não tenho que vos dar?
Se vindes a me matar,
já há muito que não vivo;
se vindes, porque me dais
tormentos desesperados,
eu, que sempre sofri mais,
não digo que não venhais:
mas porém a quê, cuidados?

[faz uma brincadeira com a vírgula, no último verso]

OUTRA AO MESMO

Se as penas que Amor me deu
vêm por tão suaves meios,
não há que temer receios,
que val um cuidado meu
por mil descansos alheios.
Ter nuns olhos tão fermosos
os sentidos enlevados
bem sei que, em baixos estados,
são cuidados perigosos.
Mas porém, ah! que cuidados!

[Brinca novamente com a pontuação]

Casamento- Adélia Prado

Há mulheres que dizem:
Meu marido, se quiser pescar, pesque,
mas que limpe os peixes.
Eu não. A qualquer hora da noite me levanto,
ajudo a escamar, abrir, retalhar e salgar.
É tão bom, só a gente sozinho na cozinha,
de vez em quando os cotovelos se esbarram,
ele fala coisas como "este foi difícil"
"prateou no ar dando rabanadas"
e faz o gesto com a mão.
O silêncio de quando nos vimos a primeira vez
atravessa a cozinha como um rio profundo.
Por fim, os peixes na travessa,
vamos dormir.
Coisas prateadas espocam:
somos noivo e noiva.

[Nos dá uma outra visão do amor, a partir da sua experiência = momento de intimidade entre os dois. Eu-lírico individual marcado é muito grande]

O casamento do diabo - Machado de Assis

Satã teve um dia a ideia
De casar. Que original!
Queria mulher não feia,
Virgem corpo, alma leal.

Toma um conselho de amigo,
Não te cases, Belzebu;
Que a mulher, com ser humana
E mais fina do que tu.

[crítica irônica]

Resolvido no projeto,
Para vê-lo realizar,
Quis procurar objeto
Próprio do seu paladar.

Toma um conselho de amigo,
Não te cases, Belzebu;
Que a mulher, com ser humana
E mais fina do que tu.

Cortou unhas, cortou rabo,
Cortou as pontas, e após
Saiu o nosso diabo
Como o herói dos heróis.

Toma um conselho de amigo,
Não te cases, Belzebu;
Que a mulher, com ser humana
É mais fina do que tu.

Casar era a sua dita;
Correu por terra e por mar,
Encontrou mulher bonita
E tratou de a requestar.

Toma um conselho de amigo,
Não te cases, Belzebu;
Que a mulher, com ser humana
E mais fina do que tu.

Ele quis, ela queria,
Puseram mão sobre mão,
E na melhor harmonia
Verificou-se a união.

Toma um conselho de amigo,
Não te cases, Belzebu;
Que a mulher, com ser humana
E mais fina do que tu.

Passou-se um ano, e ao diabo,
Não lhe cresceram por fim,
Nem as unhas, nem o rabo ...
Mas as pontas, essas sim.
[pontas = chifres]
[Da relação com a mulher é preciso cuidado, porque a mulher é ardilosa. Nem o capeta escapou disso]

Toma um conselho de amigo,
Não te cases, Belzebu;
Que a mulher, com ser humana
E mais fina do que tu.

Loucura - Florbela Espanca

Tudo cai! Tudo tomba! Derrocada
Pavorosa! Não sei onde era dantes.
Meu solar, meus palácios, meus mirantes!
Não sei de nada, Deus, não sei de nada!...

Passa em tropel febril a cavalgada
Das paixões e loucuras triunfantes!
Rasgam-se as sedas, quebram-se os diamantes!
Não tenho nada, Deus, não tenho nada!...

Pesadelos de insônia, ébrios de anseio!
Loucura de esboçar-se, a enegrecer
Cada vez mais as trevas do meu seio!

Ó pavoroso mal de ser sozinha!
Ó pavoroso e atroz mal de trazer
Tantas almas a rir dentro de mim!

A obra poética de Florbela Espanca remete-nos às mazelas do sujeito dividido: a dor de existir, o amor, a vida e a morte. Salienta Régio (1995, p. 176-177), que seus poemas exalam perfeição, apuro formal, clareza, sensibilidade, “grandeza estética” e imaginação.

PAIS E FILHOS – Legião Urbana

Estátuas e cofres e paredes pintadas
Ninguém sabe o que aconteceu.
Ela se jogou da janela do quinto andar
Nada é fácil de entender.
Dorme agora,
é só o vento lá fora.

Quero colo! Vou fugir de casa!
Posso dormir aqui com vocês?
Estou com medo, tive um pesadelo
Só vou voltar depois das três.

Meu filho vai ter nome de santo
Quero o nome mais bonito.
É preciso amar as pessoas
Como se não houvesse amanhã
Porque se você parar pra pensar
Na verdade não há.

[visão existencial do indivíduo que povoa a canção]

Me diz, por que que o céu é azul?
Explica a grande fúria do mundo
São meus filhos
Que tomam conta de mim.

Eu moro com a minha mãe
Mas meu pai vem me visitar
Eu moro na rua, não tenho ninguém
Eu moro em qualquer lugar.

[Sofrimento paradoxal, presente o tempo todo]

É preciso amar as pessoas
Como se não houvesse amanhã
Porque se você parar pra pensar
Na verdade não há.

Me diz, por que que o céu é azul?
Explica a grande fúria do mundo
São meus filhos
Que tomam conta de mim.

Eu moro com a minha mãe
Mas meu pai vem me visitar
Eu moro na rua, não tenho ninguém
Eu moro em qualquer lugar.

Já morei em tanta casa
Que nem me lembro mais
Eu moro com os meus pais.

É preciso amar as pessoas
Como se não houvesse amanhã
Porque se você parar pra pensar
Na verdade não há.

Sou uma gota d'água,
sou um grão de areia
Você me diz que seus pais não te entendem,
Mas você não entende seus pais.

Você culpa seus pais por tudo, isso é absurdo
São crianças como você
O que você vai ser,
Quando você crescer?

[O texto lírico nem sempre apresenta rimas. A letra da música traz uma chamada social e sociológica, porque traz a relação entre pais e filhos.]

ASA BRANCA – LUIZ GONZAGA

Quando "oiei" a terra ardendo
Qual a fogueira de São João
Eu perguntei a Deus do céu, ai
Por que tamanha judiação

Eu perguntei a Deus do céu, ai
Por que tamanha judiação

Que braseiro, que fornaia
Nem um pé de "prantação"
Por farta d'água perdi meu gado
Morreu de sede meu alazão

Por farta d'água perdi meu gado
Morreu de sede meu alazão

Inté mesmo a asa branca
Bateu asas do sertão
"Intonce" eu disse, adeus Rosinha
Guarda contigo meu coração

"Intonce" eu disse, adeus Rosinha
Guarda contigo meu coração

Hoje longe, muitas légua
Numa triste solidão
Espero a chuva cair de novo
Pra mim vortar pro meu sertão

Espero a chuva cair de novo
Pra mim vortar pro meu sertão

Quando o verde dos teus "óio"
Se "espaiar" na prantação
Eu te asseguro não chore não, viu
Que eu vortarei, viu
Meu coração

Eu te asseguro não chore não, viu
Que eu vortarei, viu
Meu coração

A arte não se limita à expressão estética em forma de poesia, quadro, escultura ou música; a arte é a expressão simbólica de uma emoção, um sentimento, uma ideologia.

A MÚSICA E A POESIA

Música e literatura têm muito em comum por serem manifestações artísticas infinitamente ricas. Sua distinção se dá, principalmente, pela forma como conduzem as criações humanas: uma pelo jogo de sons, a outra pelo jogo de palavras.

As relações entre a música e a literatura são tão antigas quanto essas duas formas de expressão artística. Desde a Antiguidade o texto literário adapta-se à música, bem como a música adapta-se ao texto literário, mais precisamente, ao poema. Se pensarmos, por exemplo, no Cântico dos Cânticos ou nos Salmos, percebemos com nitidez que foram textos escritos com a finalidade de serem recitados ou cantados ao som de instrumentos musicais; nos Salmos, em especial, encontramos inúmeras indicações destinadas aos músicos, tais como no Salmo 4, onde consta: "Ao mestre de canto. Com instrumentos de cordas". Outras vezes consta "Com flautas" e, em certas ocasiões, indicações bem precisas de técnica, como: "Uma oitava abaixo". São célebres as ilustrações que mostram Davi empunhando uma harpa.

Na Antiguidade grega e romana era quase inadmissível que um poema fosse dito sem que se fizesse acompanhar de música: para tanto, o poema materializava-se em frases de cadência favorável ao canto, e mediante regras mais ou menos uniformes. Não esqueçamos também a imagem do imperador Nero, empunhando uma harpa enquanto incendiava Roma: não apenas uma melodia, mas uma elegia literária à cidade que perecia nas cinzas. Procurava-se, como se percebe, captar o ouvinte pela palavra e pela música ao mesmo tempo.

Da Idade Média, passou ao nosso imaginário cultural a figura do trovador, simultaneamente poeta e músico, perambulando pelas aldeias com seu alaúde e seus poemas. Rarissimamente a música era meramente instrumental: exceto no caso das danças, a melodia conjugava-se à palavra. Poucos foram os nomes desses poetas-músicos que chegaram até nós.

Durante várias décadas do século XX, por exemplo, as contradições e crises sociais embricaram-se à literatura e à canção, tornando-se estas, parte do nosso legado histórico. Em 1930, enquanto Getúlio Vargas tomava posse com o apoio da burguesia e de militares ligados ao tenentismo, grandes mudanças ocorriam no país, desencadeando o crescimento das zonas urbanas, da industrialização e da burguesia, em detrimento do governo oligárquico da República Velha, o qual privilegiava os grandes proprietários de terras. Noel Rosa, nesse ano, lançava Com que roupa, carregando em seu samba uma crítica explícita à pobreza do país, e saía O Quinze, de Rachel de Queirós.
As composições, na década de 40, de Gonzagão, acrescentam à canção elementos típicos de sua região.

O autor brasileiro que fez a grande travessia da poesia canônica para a canção popular foi Vinicius de Moraes. Pode-se dizer que sua contribuição ao cancioneiro nacional foi mais determinante do que ao universo poético propriamente dito. O “poetinha” acabou se tornando um dos pais da Bossa Nova. O movimento mudaria para sempre os rumos da canção popular, influenciando músicos em vários países. Herdeiros da arte de Vinicius, compositores como Aldir Blanc, Caetano Veloso, Chico Buarque, Fernando Brant, José Miguel Wisnik e Paulo César Pinheiro – também sob a influência de Guimarães Rosa – se renderam ao fascínio das letras, passando a escrever crônicas, ensaios, ficção e poesia, confirmando a vocação múltipla dos autores nacionais.

A música é uma forma de lirismo. Existe, nela, um olhar muito particular, uma forma única de sentir o mundo. Além disso, assim como a literatura, é um veículo de denúncia de grandes questões sociais.

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