AULA 2

O ESPAÇO DAS REPRESENTAÇÕES

 

 

Por que certas narrativas, ou poemas, nos afetam tanto?

Por que algumas obras de arte nos impressionam e até nos comovem?

Por que uma música pode me fazer chorar ou me provocar a memória?

 

Amor é fogo que arde sem se ver;

É ferida que dói e não se sente;

É um contentamento descontente;

É dor que desatina sem doer;


É um não querer mais que bem querer;

É solitário andar por entre a gente;

É nunca contentar-se de contente;

É cuidar que se ganha em se perder;

 

É querer estar preso por vontade;

É servir a quem vence, o vencedor;

É ter com quem nos mata lealdade.

 

Mas como causar pode seu favor

Nos corações humanos amizade,

se tão contrário a si é o mesmo Amor?

 

Este soneto é uma definição poética do amor. Camões quis definir este sentimento indefinível e explicar o inexplicável, colocando imensos contrastes para caracterizar este “mistério”.

O amor é visto, então, como um sentimento que envolve sensações e que ocorre quando existe um senso de identidade entre pessoas .

Existe a dualidade da incerteza do amor “físico” (com a minúscula) com o Amor ideal, assim o amor é um tipo de “imitação” do Amor, na realidade o autor procura compreender e definir o processo amoroso.

Conceitua-se a natureza paradoxal do amor. O soneto ressalta enunciados antitéticos, compondo num todo lógico, o caráter paradoxal do sentimento amoroso.

 

Eu já estive apaixonado!

Eu reconheço essas sensações!

Eu já experimentei esses sentimentos!

Isso faz parte da minha realidade!

EU RECONHEÇO!!!!

 

Literatura e vida real se interpenetram. Os conflitos e as tensões que fazem parte da nossa vida, assim como da vida dos personagens(...) estão presentes na literatura. Os dramas vividos pelos personagens e por muitos na vida real são semelhantes (...). Portanto, a literatura é um tipo de discurso que representa o real. No soneto, por exemplo, estão presentes as realidades semelhantes às de muitos indivíduos, às de muitas coletividades.

 

Un día que vi mia senhor,

quis-lhi dizer o mui gran bem

que lh'eu quer'e como me tem

forçad'e pres'o seu amor,

e vi-a tan ben parecer

que lhi non pudi ren dizer.

 

Quant'eu pugi no coraçón

mi fez ela desacordar,

ca se lh'eu podesse falar,

quisera-lhi dizer entón,

e vi-a tan ben parecer

que lhi non pudi ren dizer.

(...)

 

A deusa da minha rua – Roberto Carlos

 

A deusa da minha rua

Tem os olhos onde a lua

Costuma se embriagar

Nos seus olhos eu suponho

Que o sol num dourado sonho

Vai claridade buscar

Minha rua é sem graça

Mas quando por ela passa

Seu vulto que me seduz

A ruazinha modesta

É uma paisagem de festa

É uma cascata de luz

Na rua uma poça d'água

 

Espelho de minha mágoa

Transporta o céu para o chão

Tal qual o chão da minha vida

A minha alma comovida

O meu pobre coração

Infeliz da minha mágoa

Meus olhos são poças d'água

Sonhando com seu olhar

Ela é tão rica e eu tão pobre

Eu sou plebeu e ela é nobre

Não vale a pena sonhar

 

“[...] do ponto de vista da estética da recepção, o texto apenas se "concretiza" através da atuação do leitor e que, devido a isso, não pode simplesmente ser compreendido como uma partitura de instruções que por si própria já assegurassem a sua transformação em forma significativa”

 

ISER apud GUMBRECHT, Hans Ulrich. “A teoria do efeito estético de Wolfgang Iser.” In.: LIMA, Luiz Costa. (Org.). Teoria da Literatura e suas fontes. Rio de Janeiro: Paz e Terra, 2002. p. 989 – 1011. vol.

 

Entender a representação como algo “manipulável” (consciente ou inconscientemente) permite-nos enxergar a Literatura em estudo como um constructo em que o autor (narrador, eu-lírico) permitirá ao leitor, por meio da ressignificação do espaço do texto, revisitar seu cotidiano com outro olhar, enxergando o, como uma outra configuração. Transformada, partida da sua própria realidade.

 

LITERATURA                                                     =>                                                        ARTE

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      FAZER ARTÍSTICO

 

  OBRA-OBJETO ARTÍSTICO

 

PROCESSO DIALÓGICO COM A REALIDADE

 

 

UNIVERSO DAS REPRESENTAÇÕES:

 

MÍMESES                                                           CATARSIS

 

 

Mimesis (μίμησις de μιμεîσθαι), ou mimese, significa imitação ou representação em grego.

Tanto Platão quanto Aristóteles viam, na mimesis, a representação da natureza. Contudo, para Platão toda a criação era uma imitação, até mesmo a criação do mundo era uma imitação da natureza verdadeira (o mundo das idéias). Sendo assim, a representação artística do mundo físico seria uma imitação de segunda mão.

Já Aristóteles via o drama como sendo a “imitação de uma ação”, que na tragédia teria o efeito catártico. Como rejeita o mundo das idéias, ele valoriza a arte como representação do mundo. Esses conceitos estão no seu mais conhecido trabalho, a Poética.

 

Do gr. mímesis, “imitação” (imitatio, em latim), designa a acção ou faculdade de imitar; cópia, reprodução ou representação da natureza, o que constitui, na filosofia aristotélica, o fundamento de toda a arte.

Os conceitos de mímesis e poeisis são nucleares na filosofia de Platão, na poética de Aristóteles e no pensamento teórico posterior sobre estética, referindo-se à criação da obra de arte e à forma como reproduz objectos pré-existentes. O primeiro termo aplica-se a artes tão autónomas e ao mesmo tempo tão próximas entre si como a poesia, a música e a dança, onde o artista se destaca pela forma como consegue imitar a realidade. Não se parte da ideia de uma construção imitativa passiva, como acontece na diegesis platónica, mas de uma visão do mundo necessariamente dinâmica.

 

Teóricos contemporâneos tentaram recuperar esta questão, que se relaciona com o conceito de verosimilhança, discutido por autores como Ingarden, Sklovski, Vygotski, Jakobson, Barthes, Genette ou Hamon. O alemão Erich Auerbach traça, em Mimesis (1946), a história da representação poética da realidade na literatura ocidental, analisando a relação do texto literário com o mundo, mas recusando definir o que seja a imitação; Northrop Frye, em Anatomy of Criticism (1957), retoma a distinção aristotélica entre mímesis superior (domínio superior de representação, onde o herói domina por completo a acção das restantes personagens) e a mímesis inferior (domínio onde o herói se coloca ao mesmo nível de representação das restantes personagens).

 

Hans Georg Gadamer retoma a filosofia de Pitágoras, para quem o mundo real imitava a ordem cósmica das relações numéricas, para defender que a música, a literatura e a pintura modernas imitam essa ordem primordial. Em todos os casos, falamos de imitação enquanto forma de representação do mundo e não como uma forma de copiar uma técnica (imitatio, na retórica latina), o que foi prática corrente a partir do Império Romano, sobretudo na imitação da obra de mestres de gerações anteriores.

 

Bibliografia: Erich Auerbach: Mimesis. Dargestellte Wirklichkeit in der abendländischen Literatur (1946; Mimésis. La représentation de la réalité dans la littérature occidentale, Paris, 1968); David Lodge: “Mimesis and diegesis in modern fiction”, in After Bakhtin (1990); Jacques Derrida: La Dissémination (1972); L.Costa Lima: Mímesis e Modernidade (1980); M. Koller: Die Mimesis in der Antike (1954); R. Mc Keon: “Literary Criticism and the Concept of Imitation in Antiquity”, in Critics and Criticism Ancient and Modern, ed. R.S. Crane (1952).

 

A arte literária usa a palavra para representar o real. Não um real exato, mas um real determinado por um olhar. O discurso não dá conta, integralmente, do real. Portanto, a imitação do real a efetiva-se segundo o olhar de quem o vê. A mimesis é a relação do signo com o real. Trata-se de uma imitação e não da cópia. Para os pitagóricos é a representação dos estados da alma. Para Platão, é a imitação da aparência da realidade: imagem da imagem – simulacro. Para Aristóteles, é a imitação das essências, conhecimento profundo do ser humano, revelação da plenitude do real.

 

OS BRUZUNDANGAS – Lima Barreto

 

Um grande financeiro

 

“A República dos Estados Unidos da Bruzundanga tinha, como todas as repúblicas que se prezam, além do presidente e juízes de várias categorias, um Senado e uma Câmara de Deputados, ambos eleitos por sufrágio direto e temporários ambos, com certa diferença na duração do mandato: o dos senadores, mais longo; o dos deputados, mais curto. O país vivia de expedientes, isto é, de cinquenta em cinquenta anos, descobria-se nele um produto que ficava sendo a sua riqueza. Os governos taxavam-no a mais não poder, de modo que os países rivais, mais parcimoniosos na decretação de impostos sobre produtos semelhantes, acabavam, na concorrência, por derrotar a Bruzundanga; e, assim, ela fazia morrer a sua riqueza, mas não sem os estertores de uma valorização duvidosa. Daí vinha que a grande nação vivia aos solavancos, sem estabilidade financeira e econômica; e, por isso mesmo, dando campo a que surgissem, a toda a hora, financeiros de todos os seus cantos e, sobretudo, do seu parlamento. (...)”

 

A Constituição

 

 QUANDO se reuniu a Constituinte da República da Bruzundanga, houve no país uma grande esperança. O país tinha, até aí, sido governado por uma lei básica que datava de cerca de um século e todos os jovens julgavam-na avelhentada e já caduca(...)

 Reuniu-se, pois, a Constituinte com toda a solenidade. Vieram para ela, jovens poetas, ainda tresandando à grossa boêmia; vieram para ela, imponentes tenentes de artilharia, ainda cheirando aos "cadernos" da escola; vieram para ela, velhos possuidores de escravos, cheios de ódio ao antigo regímen por haver libertado os que tinham; vieram para ela, bisonhos jornalistas da roça recheados de uma erudição à flor da pele, e também alguns dos seus colegas da capital, eivados do Lamartine, História dos girondinos, e entusiastas dos caudilhos das repúblicas espanholas da América. Era mais ou menos esse o pessoal de que se compunha a nova Constituinte.

Tinham entrado no ritual da nova República os banquetes pantagruélicos; e, nas vésperas da reunião, houve um de estrondo. (...)

 A Carta da Bruzundanga, que começou imitando a do país dos gigantes, foi inteiramente obedecida nessa passagem, e de um modo religioso.

 No que toca ao resto, porém, ela tem sofrido várias mutilações, desfigurações e interpretações de

modo a não me permitir continuar a dar mais apanhados dela, a menos que quisesse escrever um livro de seiscentas páginas

 

http://www.aprendebrasil.com.br/classicos/obras/Os_bruzundangas.pdf

 

Sátira. Bruzundanga é um país fictício, parecidíssimo com o Brasil do começo do século e o de hoje, cheio de elites incultas dominando um povo, com racismo [javaneses lá, mulatos como o autor cá], pobreza, obsessão com títulos e riquezas e uma literatura de enfeite, sem sentido e desatualizada. O livro é um diário de viagem de um brasileiro que morou tempos na Bruzundanga e conheceu a sua realidade.

 

O homem só consegue recriar a quilo que faz parte da sua noção de relações sociais ou contexto cultural. Ele jamais se desprende de seu grau de entendimento . Ele revela o natural e o transforma em patrimônio cultural.

 

A IMITAÇÃO É UM PROCESSO REVELADOR

 

A mimesis está na apreensão do ser humano e do mundo

 

O MOMENTO HISTÓRICO É A FONTE DA CRIAÇÃO LITERÁRIA

 

O contexto histórico com todas as suas particularidades e características, conflitos e relações é o material que possibilita a imitação do real.

A literatura, quando finge o particular, atinge a coletividade, a universalidade. Permite a avaliação de outras realidades semelhantes. Isso traduz a universalização da literatura.

Exemplo: Machado de Assis – o ser humano

 

Segundo Aristóteles, filósofo grego, a Catarse é o meio através do qual o Homem purifica sua alma, através da representação trágica. Para ele, a tragédia é um estilo derivado da poética dramática, e consiste na reprodução de ações nobres, por intermédio de atores, os quais imitam no palco as desventuras dos heróis trágicos que, por escolhas mal realizadas, passam da felicidade para a infelicidade, provocando na platéia sentimentos de terror e piedade, purgando assim as emoções humanas.

É um termo grego que significa purgação.

É a libertação promovida pela criação artística. Toda obra de arte opera no homem a catharsis, por que opera uma sensação de prazer, de plenitude – transformando o leitor, gerando uma sensação de abrandamento das emoções.

 

MIMESIS  =>  INTERLIGADAS =>  CATHARSIS

 

Mimesis gera a catharsis, pois uma boa imitação do real pode gerar uma gama de emoções no leitor, transformando-o. As revelações do processo mimético gera múltiplas interpretações do texto que possui uma linguagem em permanente estado de atualização

 

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