Aula 4

UNIVERSO ROMANESCO

 

As obras literárias são classificadas em vários grupos que correspondem a sua estrutura de composição e à forma como se apresentam, revelando a atitude do escritor perante a realidade artística que está criando. São os chamados gêneros literários. O filósofo grego Aristóteles, no século V. a.C., estabeleceu uma divisão entre os gêneros que persiste até hoje:

- gênero épico (ou épica);

- gênero lírico (ou lírica)

- gênero dramático (ou dramática)

 

A grosso modo, diríamos que o gênero lírico acontece quando um eu registra sua subjetividade e emoções; se nos é contada alguma história, trata-se do épico; mas se atores, através de gestos e falas, representam uma ação no palco, nos referimos ao dramático.

A divisão estabelecida por Aristóteles foi retomada durante o Renascimento e transformada em códigos rígidos e regras invioláveis. Séculos depois, os românticos revisaram e até mesmo questionaram estes conceitos. No século XX, chegou-se a propor a abolição das fronteiras entre eles e, inclusive a declará-los inválidos ou inúteis.

 

Exemplo: Filme O Náufrago

“(...) ele tem a necessidade vital de falar. Como não há ninguém, ele cria com a bola Wilson uma relação de amizade, de companheirismo.”

“(...) bola é o reflexo dele mesmo. É como se ele estivesse conversando consigo mesmo. Dessa forma, vem à tona toda a sua individualidade. Num estado de solidão e conversando com o seu próprio eu, o personagem deixa aflorar todos os seus medos, todos os seus questionamentos, enfim, tudo o que o move, ali, enquanto indivíduo.”

 

INDIVIDUALIDADE                                                         =>                                                        SUBJETIVIDADE

 

EU

 

INCERTEZAS                      MEDOS                                QUESTIONAMENTOS                    ANSIEDADES

 

O romance é o espaço literário para expor as individualidades, as subjetividades. É o espaço onde se entrecruzam protótipos da vida real com toda a sua subjetividade. Trata-se de um tipo de discurso que revela o indivíduo nos seus mais variados aspectos.

 

É o discurso que vira o homem do avesso para revelar tudo aquilo que ele tem de mais recôndito. Neste contexto, até o silêncio fala, ou seja, até o silêncio deve ser entendido pelo leitor.

 

TEXTOS NARRATIVOS

 

Romance: é um texto completo, com tempo, espaço e personagens bem definidos de carácter verossímil.

Fábula: é um texto de carácter fantástico que busca ser inverossímil e a finalidade é uma lição de moral.

Epopeia ou Épico: é uma narrativa feita em um longo poema, ressaltando os feitos de um herói ou de um povo.

Novela: é um texto intermediário entre a longevidade do romance e a brevidade do conto.

Conto: é um texto narrativo breve, e de ficção, geralmente em prosa, que conta situações rotineiras.

Crônica: narrativa informal, ligada à vida cotidiana, com linguagem coloquial, e humor ecrítica.

Ensaio: é um texto literário breve, situado entre o poético e o didático, expondo ideias, críticas e reflexões morais e filosóficas a respeito de certo tema.

 

A obra literária reconhecida como “Romance” é uma grande herdeira do gênero narrativo. consagrou diversos escritores com o surgimento da prosa romântica, que vinha surgindo da Europa em contraposição ao clássico.

 

A Epopeia é uma narrativa feita em versos!

 

COMO DIFERENCIAR A EPOPEIA DO ROMANCE

 

Herdeiro direto da estrutura narrativa da epopeia clássica, o romance emerge – como o concebemos hoje – entre meados do século XVI e início do século XVII, especialmente na Espanha, expandindo-se em seguida pela Inglaterra, França e Alemanha. Já no século XVIII, o romance havia se transformado na mais popular de todas as formas literárias.

Em relação à epopeia, o romance traz importantes novidades:

- A metrificação (verso) é abandonada e a prosa de tom relativamente coloquial torna-se uma característica da linguagem narrativa.

 

- Por se estruturar a partir da dissolução da epopeia clássica e do declínio das novelas pastoris, galantes e de cavalaria da Idade Média, o romance emerge sem regras fixas ou modelos a serem obedecidos. Por isso, por não ter um passado a guardar, ele se tornou a mais aberta de todas as formas literárias.

- Os personagens centrais – os heróis – deixam de ser o aristocrata guerreiro ou o grande homem de aventuras e conquistas, com os seus rígidos códigos de honra e seus valores típicos da nobreza. Ao contrário, agora são homens comuns, normalmente de origem burguesa ou plebeia, e que vivem dramas corriqueiros. Suas ações já não lhes proporcionam fama e poder. Giram em torno de fatos relativamente insignificantes: sentimentos, sociais e financeiros, comuns a maioria das pessoas.

 

- Os personagens do romance já não são personalidades inteiriças e perfeitas. Agora a interioridade se dissocia da aventura e a alma fica fraturada entre os desejos íntimos e a realidade quase sempre hostil. Por viverem tal dualidade, os protagonistas apresentam uma complexidade maior. Portanto, a sondagem interior, mais tarde conhecida como análise psicológica, nasce com o romance. - Os conflitos que embasam a epopeia clássica colocam em oposição apenas os personagens e a realidade exterior. No romance, ao inverso, ocorrem também dentro dos próprios protagonistas. É o chamado conflito interior. Isso não impede o choque dos indivíduos com o mundo, expressos sobretudo na lua dos mesmos contra as normas e os preconceitos sociais.

 

- Este último confronto torna-se clássico no romance: um indivíduo com valores autênticos tenta impô-los à realidade. Sede de amor, de justiça e de dignidade humana impelem-no ao desejo de mudança de um mundo, geralmente insensível e injusto. No entanto, o resultado desse esforço é, no mais das vezes, o fracasso. Desamparado, o personagem ou adere à ordem opressiva ou sucumbe à desilusão, à loucura e até à morte. Por isso, inúmeros romances se apresentam como um verdadeiro inventário de ilusões perdidas.

- Contudo, em muitas obras do gênero, há um triunfo do herói comum, seja pela realização de seus afetos ou de seus ideais, seja pela satisfação de suas exigências de escalada social, às vezes alcançada graças à sua esperteza e à sua flexibilidade ética.

Estas diferenças entre a epopeia e seu mais ilustre descendente levaram o filósofo alemão Hegel, nos primórdios do século XIX, a cunhar a célebre afirmação:

“O romance é a epopeia de um mundo sem deuses”

Ou seja, o romance é a epopeia do cotidiano!

 

A grande diferença entre epopeia e romance é a questão do tempo. A epopeia está presa ao passado. Ela vive de memória. O seu objeto de representação é o passado e a sua fonte está nos mitos e lendas.

 

O objeto do romance é o momento presente. A sua fonte, o dínamo propulsor da criação, são os fatos atuais. O romance não trabalha com memória, mas com registros atuais. Ele discute a contemporaneidade.

 

Capitães da areia – Jorge Amado

 

Publicado em 1937, Capitães da Areia é o sexto romance de Jorge Amado, um dos mais famosos e traduzidos escritores brasileiros do século 20. No prefácio ao livro, escreve o romancista que, com essa obra, encerra o ciclo de "os romances da Bahia".

 

A narrativa, de cunho realista, gira em torno das peripécias de um grupo de "meninos de rua" que sobrevive de furtos e pequenas trapaças. Por viverem em uma espécie de armazém à beira do cais, os garotos do bando, liderados por Pedro Bala, são conhecidos pela má-fama de "capitães da areia". É lá, no trapiche abandonado, que Pedro Bala, órfão, (o pai foi morto à bala por liderar uma greve, daí a alcunha do garoto, enquanto a mãe tem o paradeiro desconhecido) se refugia com seu grupo.

 

As epopeias caracterizam-se por serem anônimas e brotarem da alma dos povos jovens. São uma espécie de criação coletiva em que o poeta desempenha a função de rapsodo ou compilador. Os épicos gregos apresentam uma estrutura composta por quatro partes: composição, invocação, narração e epílogo. Na proposição dá-se o enunciado da obra, conforme; na invocação há o apelo aos deuses para que ajudem o poeta; a narração é parte central e mais extensa da epopeia. Contém relato minucioso das ações do herói, devendo obedecer a uma sequência lógica, mas podendo começar no meio; o epílogo é a parte final da narrativa, deve guardar um imprevisto, ser verossímil, coerente e conter um final feliz.

 

A história é conduzida em função dos destinos individuais de cada integrante do bando. Assim, Jorge Amado ilustra a marginalização definitiva de uns e a desalienação de outros. Mostra das injustiças sociais e a luta dos trabalhadores, por exemplo.

 

Percebemos que Jorge Amado deixou em Capitães da Areia a marca digital do seu engajamento partidário, preocupando-se com seu testemunho histórico: o de um homem que participou efetivamente de um período frenético da história do Brasil.

 

A teoria bakhtiniana parte da asserção de que a realidade da linguagem é o fenômeno social da interação verbal. A linguagem verbal não é vista apenas como sistema formal, mas como atividade, como um conjunto de práticas socioculturais. A partir desses pressupostos, em Bakhtin (1997) a interação verbal é fundamentalmente uma filosofia da linguagem. É uma translinguística , que constitui um foco que possibilita enxergar todas as categorias radicadas na linguagem. Essas considerações fazem do romance o meio preferido por Bakhtin para a dramatização de suas ideias sobre a linguagem, a teoria social e a história da percepção, pois para esse autor russo toda as peculiaridades da vida humana estão permeadas pela linguagem. Para Bakhtin o romance é o grande livro da vida

Seguindo a teoria bakhtiniana, as falas articuladas pelas personagens que compõem a trilogia Os subterrâneos, formam um plurilinguïsmo (ou heteroglossia) são discursos de todos os segmentos sociais; universos sociais em comunicação e conflito. Encontram-se na obra vozes do comunismo mediadas por líderes das células entre os operários e simpatizantes do comunismo, que é uma demonstração de como essas vozes vão sendo absorvidas por aqueles que lutam contra o Estado Novo. Ao mesmo tempo, existem vozes que partem das elites carioca e paulista que se contrapõem às vozes comunistas, num verdadeiro jogo de diferentes verdades sociais.

 

Jorge Amado elabora um discurso onde as verdades sociais podem ser vistas a cada momento. A dialogização das personagens na obra se apresenta como um mundo de vozes sociais em múltiplas relações. De acordo com Bakhtin (CLARK,1998), podemos perceber o romance como uma espécie de radiografia, de uma visão de mundo a um dado tempo e a uma dada camada social em uma sociedade determinada. Assim, um gênero encarna uma ideia historicamente específica do que significa ser humano.

 

Todo discurso é produzido num determinado espaço com todas as suas facetas ideológicas. Portanto, é impossível ler um romance sem pensar que, nas suas entrelinhas, existe um viés ideológico. Fica claro, então, que o tempo no romance é o presente. Ele fala daqueles e daquilo que está próximo. Seria impossível, no espaço romanesco, haver um deslocamento para o passado absoluto ou trazê-lo para a nossa realidade.

 

O narrador exerce um papel fundamental, pois ele é aquele que fala de seu momento presente, para aqueles que são seus iguais, no patamar do tempo, e de acordo com o ponto de vista de sua época. Ele é o homem de sua época, ou seja, pensa como a sua época.

Enquanto a epopeia é um universo fechado, acabado, o romance é um gênero aberto e imortal. Ele vive em constante estado de renovação.

 

Desde o seu início, o romance apresenta, em maior ou menor escala, uma forte índole realista pois os escritores buscaram elaborar uma síntese entre os dois elementos fundamentais do gênero:

- Personagens fictícios que vivem acontecimentos imaginários.

- O contexto histórico e as circunstâncias reais (costumes, espaço físico-geográfico, vida cotidiana, etc.) em que esses personagens se movimentam.

Dar ao leitor a impressão de que o enredo é um reflexo da realidade, fornecendo-lhe uma sólida e consistente descrição de múltiplos aspectos da existência humana, constitui o objetivo da expressiva maioria dos romancistas.

 

No prólogo do ciclo de relatos que constituem A comédia humana (1830-1850), Balzac define sua tarefa como uma espécie de historiador do cotidiano:

“Ao fazer o inventário de vícios e virtudes, ao reunir os principais feitos das paixões, pintar os caracteres, eleger os principais acontecimentos da sociedade, compor tipos mediante a fusão de vários traços de caráter, quem sabe eu poderia chegar a escrever essa história esquecida pelos historiadores, a história dos costumes.”

 

Uma outra questão importante é que a prosa romanesca quebra o verticalismo do mundo épico. Se o artista é um homem de sua época, como dissemos, tudo é colocado na horizontalidade. Não há, por exemplo, a imagem de um herói acima do bem e do mal. Muito pelo contrário! O homem aparece com todas as suas fragilidades. Ele não é estático. Por isso, a personagem está sempre em movimento, isto é, sempre em transformação. Além disso, os conflitos vividos pelas personagens fazem parte da existência humana.

 

 

NARRATIVA

(AVENTURA)

 

PONTO DE VISTA

 

PERSONAGENS                                TEMPO                                ESPAÇO                               ENREDO

 

PERSONAGENS - são os agentes da narrativa. Eles movimentam a trama, dando sentido às ações. Podem ser, quanto ao papel que desempenham no enredo, protagonistas, antagonistas ou personagens secundários.

TEMPO - sabemos que toda narrativa apresenta fatos que acontecem dentro de um fluxo de tempo - cronológico ou psicológico.

ESPAÇO - conjunto de elementos que caracterizam tanto o exterior quanto interior. As ações das personagens podem acontecer tanto no espaço físico quanto psicológico.

ENREDO - mesma coisa que trama ou intriga. É a sequência de fatos ou a forma como os acontecimentos estão organizados.

 

PONTO DE VISTA - também é chamado de foco narrativo. Trata-se da posição ocupada pelo narrador. Se narra em primeira pessoa, participando dos fatos narrados, é chamado de narrador-personagem. Se narra em terceira pessoa e está fora dos fatos narrados, é chamado de narrador-observador. Neste caso, ele tudo sabe, tudo vê e está em todos os lugares. Pode-se dizer que é onisciente e onipresente.

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