AULA 7
O DRAMÁTICO E SUAS FORMAS

ARIANO SUASSUNA

Ariano Vilar Suassuna nasceu em Nossa Senhora das Neves, hoje João Pessoa (PB), em 16 de junho de 1927, filho de Cássia Villar e João Suassuna.
A partir de 1942 passou a viver no Recife, onde terminou, em 1945, os estudos secundários no Ginásio Pernambucano. Com Hermilo Borba Filho. Fundou o Teatro do Estudante de Pernambuco. Em 1947, escreveu sua primeira peça, Uma Mulher Vestida de Sol.
Em 1956, abandonou a advocacia para tornar-se professor de Estética na Universidade Federal de Pernambuco. Em 1959, fundou o Teatro Popular do Nordeste.
Em 1955, Auto da Compadecida que estreia no cinema, 1969. Microssérie da Rede Globo de Televisão, 1994, e no cinema, 2000.

O DRAMÁTICO E SUAS FORMAS

Dramático vem do verbo grego “drao”, e quer dizer: fazer, agir. A principal característica do gênero dramático é a ação. Portanto, a interpretação encontra-se implícita na própria origem etimológica do termo. Este gênero ultrapassa a literatura propriamente dita, valorizando o texto dramático que pode ser em verso ou em prosa.
O gênero dramático só se complementa com a atuação de atores (interpretação) no espetáculo teatral. Na medida em que a leitura de um conto, de uma crônica, de uma poesia, de um romance, é um momento de mistura de atuação do leitor sobre o texto, quando pensamos num texto de gênero dramático pensamos num gênero que ultrapassa a literatura, porque está impregnada pela necessidade de ação e é um gênero que só vai se completar quando levado à encenação num espaço específico dentro de um tempo específico.
A palavra drama significa, etimologicamente, ação. Por isso, em obras dramáticas, a história e as emoções não são imitadas através do discurso do narrador, mas são expressas através das personagens em ação. Novamente, a noção de complementariedade, aqui expressa. No conto, crônica, poesia ou romance, o narrador dá as mãos ao leitor e com ele caminha na direção da evolução do texto, sendo seus ouvidos e seus olhos, na medida de que ele é um intermediário que possibilita a invasão da cena. No caso do gênero dramático essa figura não existe. Nesse não existir, toda essa recolha de elementos circunstanciais da cena, fica muito ao encargo do ator, que na sua atuação vai demonstrar o que passa por dentro de si, vai demonstrar a sua reação à realidade que vive naquele momento. Por exemplo, em algumas peças da Grécia antiga e em Shakespeare, havia a presença do coro, que tratava, num primeiro momento, de sanar a necessidade existente de um elemento que pudesse firmar o elo entre espectadores e ação. Mas, a tendência é a supressão do coro, e o surgimento de uma comunhão que ficará ao encargo do espectador, quando se deixa aprisionar pela tensão do gênero e pela capacidade do autor de trabalhar a cena de forma que deixe emanar dele toda a informação que o espectador necessita para dialogar com a ação.
Portanto, o gênero dramático caracteriza-se pela ausência de um narrador, pelo destaque dado à fala da personagem e pela concentração dramática.
Segundo João David Pinto Correia (1993) são as seguintes as composições da literatura popular integradas neste gênero:
Tragédias e dramas
Comédias
Fábulas e apólogos
Autos
Entremezes
Cegadas
Representações
Diálogos
Monólogos

A ação dramática encontra sua realização num espaço restrito e num tempo restrito. O espaço, geralmente, é um palco. O tempo é aquele necessário para representar uma história, estabelecendo uma comunicação entre obra e público. Trata-se de um tempo que passa num ritmo próprio, um ritmo que tem por objetivo o desfecho da história. Esse ritmo é desencadeado a partir do momento em que o espectador tem sua atenção voltada para a tensão.

O adjetivo - dramático - mantém uma estreita ligação com o termo “drama”, cujo significado é “ação”. Tal ação é representada por meio da encenação de atores, que, no palco, são peças fundamentais. Destituída de narrador, o enredo é retratado pelos próprios personagens do espetáculo, mantendo uma perfeita sintonia entre a palavra verbalizada e o público espectador.
Dentre as características que perfazem tal modalidade estão: atores, que em consonância com outros elementos, como, figurino, maquiagem, cenário, gestos, reproduzem a história em forma de diálogos, divididos em atos e cenas; e a ação propriamente dita, retratada numa sequência linear, constituída pela exposição, conflito, complicação, clímax e desfecho final.

“Contrariamente a um preconceito bastante difundido e cuja origem é a escola, o teatro não é um gênero literário. Ele é uma prática cênica.”
Ler o teatro, tomo II. A escola do espectador, Belin, 1996, p. 9.

Cultuado desde a Antiguidade, sua origem deve-se aos gregos, haja vista que em suas festas religiosas homenageavam ao deus Dionísio (Baco). E entre os principais dramaturgos figuram-se:
Ésquilo - Prometeu acorrentado
Sófocles - Édipo rei, Electra
Eurípides - Medeia, As bacantes
Aristófanes - A paz, Assembleia de mulheres
Antífanes - Menandro

A AÇÃO

As vivências e atitudes dos personagens conduzem à ação de um texto narrativo. Há uma sequência de fatos e acontecimentos a serem contados. Essa sequência cronológica de fatos e acontecimentos constitui a história; a organização dessa sequência resulta no enredo, ou intriga. Dessa forma o enredo de um texto narrativo resulta de um trabalho de montagem desenvolvido pelo ficcionista a partir dos elementos fornecidos pela história.
Uma história pode ser esquematicamente a passagem de uma situação inicial para uma situação final, devido à ocorrência de transformações. Surgem os conflitos entre os personagens. Assim, podem-se apontar as seguintes partes de uma história: a apresentação, a complicação, o clímax e o desfecho.

PARTES DA HISTÓRIA

Apresentação – nesta parte, mostra-se ao os primeiros dados do mundo construído, como os personagens e suas características, o espaço em que se movimentam, as relações que mantêm entre si e suas referências temporais; expõe-se aqui a situação inicial do universo ficcional.
Complicação – é o momento em que se rompe o equilíbrio do estado inicial; por causa das atitudes de algum personagem ou de um acontecimento, surgem conflitos e começam a ocorrer transformações que conduzem a narrativa ao ponto máximo de tensão.
Clímax – é o ponto máximo de tensão, resultante da convergência de vários conflitos vividos pelos personagens.
Desfecho ou desenlace – corresponde à situação final, ou seja, ao novo equilíbrio que se alcança depois do clímax.

PERSONAGENS

Os personagens de uma narrativa são seres fictícios, criaturas de papel e tinta moldadas pelo escritor por meio da organização de traços recolhidos da realidade e trabalhados pela imaginação. Inseridos num mundo construído que segue uma coerência interna, os personagens subordinam-se a ela. Sua movimentação é que determina o andamento da ação: o enredo existe por meio de personagens, que nele ganham vida.

CATEGORIAS DE PERSONAGENS

Protagonista – é o personagem principal da narrativa, a quem se devem as principais ações dinamizadoras do enredo, ou a quem o texto dedica maior pormenorização de atitudes e emoções. É comum denominá-lo herói quando se afirma por suas qualidades físicas ou morais.
Antagonista - é o principal opositor do protagonista. Suas atitudes provocam o surgimento de conflitos, cuja superação conduz às transformações.
Personagens secundários, adjuvantes ou coadjuvantes - surgem ao redor do protagonista ou do antagonista, auxiliando-os ou prejudicando-os em suas atitudes. Sua atuação é mais ou menos a mesma ao longo de toda a trama.

TEMPO

O mundo construído pelo ficcionista apresenta marcas temporais: podem ser indicações de datas ou horários, referências às partes do dia, às estações do ano, à posição dos astros no céu. É nesse fluxo de tempo que acontecem os fatos formadores da história; é nele que os personagens desenvolvem seus dramas e conflitos.

ESPAÇO

Os componentes físicos que servem de cenário ao desenrolar da ação e aos movimentos dos personagens constituem o chamado espaço da narrativa: trata-se de mais um dos elementos do mundo construído pelo ficcionista.

NARRADOR

O elemento do mundo ficcional responsável por sua apresentação a quem esteja interessado em conhecê-lo é o narrador. É sua existência que diferencia o gênero narrativo do gênero dramático: neste último, ação, personagens, espaço e tempo desenrolam-se diretamente diante do espectador. No gênero narrativo eles chegam ao leitor através do narrador. Ao ler um texto narrativo, você percebe a existência de uma voz que conta ou mostra os fatos: essa voz é o narrador.
Foco narrativo - é o ponto de vista assumido pelo narrador ao apresentar o mundo construído. De acordo com o foco narrativo que ele assume, o narrador se aproxima ou se distancia dos fatos narrados, dos personagens, da ação e daquele a quem narra. Sua posição pessoal pode tender à neutralidade ou ser claramente participativa.

Um único caráter comum é retido pelos antigos a fim de definir o gênero dramático, opondo-o a uma outra grande família literária, a narração: é a enunciação. Os meios de que lança mão o teatro fazem-no imitar “todas as pessoas agindo e realizando algo” (A Poética 1448a), e a arte dramática expressa essa mímese por meio de uma enunciação na primeira pessoa. Aristóteles distingue assim a imitação que se faz “contando” daquela que se faz agindo e falando.
O teatro poderia pois se definir, em primeiro lugar, como uma arte do “eu”. Mas um eu plural, posto que cada protagonista que toma a palavra emprega-a por sua própria conta.

“O teatro torna-se o gênero mais objetivo, aquele em que as pessoas parecem falar por si mesmas, sem que o autor tome diretamente a palavra, salvo no caso especial do porta-voz, do mensageiro, do coro, do prólogo, do epílogo ou das indicações cênicas”
(Patrice Pavis, Dicionário do teatro, Dunod, 1996, p. 148)

TENSÃO

A tensão é a essência do dramático. Ela é movida por duas características principais: pathos e problema. Daí, temos mais duas perguntinhas:
O pathos é a paixão. Para expressá-lo, o autor dramático cria um tipo de linguagem comovente e arrebatada. Esta linguagem traduz a resistência da personagem diante dos embates gerados pelo mundo que a cerca. A fala patética é impetuosa e pressupõe um outro que a ouça e com ela se comova. É uma comoção espontânea.
Esse sentimento grandioso, seja de dor ou de prazer, está sempre direcionado a algo que se crê ou a algo em que se deposita esperança. É uma força que caminha, gradativamente, para um clímax. Neste ponto, os objetivos são atingidos.

PRINCIPAIS MANIFESTAÇÕES DRAMÁTICAS

TRAGÉDIA

É a forma dramática de origem grega, usa uma linguagem rebuscada e apresenta personagens da aristocracia que, vitimadas pelo destino caem em desgraça. Procura inspirar pelo horror e piedade, provocando a reflexão sobre o sentido da existência humana.

A palavra tragédia deriva do grego tragos, que significa bode, e oide, que significa canto. A partir de um entendimento mítico, acredita-se que tenha nascido de cultos religiosos praticados em honra ao deus Dionísio, nos quais as pessoas apareciam travestidas com pele de bode e, usando máscaras, cantavam hinos à divindade que presidia a colheita da uva. Apresenta um choque entre o herói e seu destino.

“A tragédia é, portanto, a imitação de uma ação nobre levada até o final e tendo uma certa extensão. Numa língua realçada por detalhes espirituosos dos quais cada espécie é utilizada separadamente de acordo com as partes da obra; é uma imitação feita por personagens em ação e que, por intermédio da piedade e do temor, realiza a purgação das emoções desse gênero” (A Poética, 1449b, op. cit.)

Ó geração de mortais, como vossa existência nada vale a meus olhos! Qual a criatura humana que já conheceu a felicidade que não seja a de parecer feliz, e que não tenha recaído após, no infortúnio, finda aquela doce ilusão? Em face do teu destino tão cruel, ó desditoso Édipo, posso afirmar que não há felicidade para os mortais! (SÓFOCLES, p. 132)

A ação trágica segue uma sequência:
nó, reconhecimento, peripécia e clímax.

COMÉDIA

Também de origem grega, apresentava originalmente personagens de caráter vicioso e vulgar, que protagonizavam atitudes ridículas. A comédia é uma sátira de comportamentos individuais e coletivos. Atualmente, a comédia representa aspectos da vida cotidiana como tema, provocando o riso.
Para Aristóteles, é a imitação de pessoas de qualidade moral ou psíquica inferior. É a exposição de vícios que caem no domínio do risível. Submetido ao riso, o homem percebe seus limites. O ridículo dispersa a tensão dramática. Supõe-se que a comédia tenha nascido dos festejos fálicos no culto à procriação.
A tensão trágica caminha para o clímax. A interdependência das partes, na tragédia, é responsável pela tensão. Já a tensão cômica é permanentemente desfeita pelo riso. Surgem várias tensões que são dispersadas ou abolidas pelo ridículo ou pelo riso (STALLONI, 2003, p. 40-41).

O autor da Poética desejava, sobretudo, em se tratando de teatro, arte da mimese, definir as leis do gênero que considerava superior e, de alguma forma, ideal: a tragédia. As posições relativas à comédia, só foram por ele apresentadas por comparação com esse gênero.
Eis os três principais critérios admitidos por Aristóteles:
• A imagem do herói – “uma delas (a comédia) pretende imitar o pior dos homens, ao passo que a outra (a tragédia) consagra a imitação dos homens melhores que os contemporâneos” (1448a). E ainda: “A comédia é [...] uma imitação dos homens que não tem grande virtude” (ibidem)
• Os assuntos inferiores – A origem da comédia é popular, dionisíaca.
• Final feliz – “[...] de fato os personagens que, na lenda, são os piores inimigos, partem ao final reconciliadas, e ninguém é morto por ninguém” (1453b)
• Força cômica – deformidade (defeito) e linguagem.

EXERCÍCIO DO SIMULADO

2a Questão (Ref.: 201506159190)
A tensão é a essência do gênero dramático. Quais são as duas características principais que a movem?
RESPOSTA: Pathos e problema.

Exibições: 4

© 2017   Criado por Sílvia Mota.   Ativado por

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