AULA 8
O LÍRICO E SUAS FORMAS


CADA UM – RICARDO REIS

Cada um cumpre o destino que lhe cumpre,
E deseja o destino que deseja;
Nem cumpre o que deseja,
Nem deseja o que cumpre.
Como as pedras na orla dos canteiros
O Fado nos dispõe, e ali ficamos;
Que a Sorte nos fez postos
Onde houvemos de sê-lo.
Não tenhamos melhor conhecimento
Do que nos coube que de que nos coube.
Cumpramos o que somos.
Nada mais nos é dado.

[Poeta cético em relação à realidade. Coloca a existência ambígua, no sentido de que a realidade vivida não é a realidade escolhida e, por não ser escolhida, deixa sempre uma certa nostalgia daquilo que poderia ter sido a opção e essa nostalgia me impede de me entregar aquilo que é de fato a minha sina. Então, temos essa intermitência de existência, na medida em que nem eu vivo completamente aquilo que me é destinado, porque tenho a imposição como marca da vivência, nem coloco em prática aquilo que desejo.
O último verso é emblemátido; marca de fato a relação de Ricardo Reis com a vida. Isso é de um ceticismo! Ricardo Reis era médico, tinha a vivência científica e diz como médico, consciente da fisiologia humana, consciente das potencialidades e “impotencialidades”, bate o martelo – dá o diagnóstico. Esse perímetro de ação existencial é muito definido para Ricardo Reis.
Toda essa tensão existente entre o ser e a pretensão de ser é marcada pela questão do destino representar, de uma certa forma, uma posição irrevogável, inexorável. O destino está ali já escrito, já arrumado, orquestrado ou planejado e só nos resta aceitar nossas potencialidades, aceitar nossos limites, enxergar o que somos e trabalhar com aquilo que a realidade nos oferece como material efetivo.]

ÁLVARO DE CAMPOS

Começo a conhecer-me. Não existo.
Sou o intervalo entre o que desejo ser e os outros me fizeram,
ou metade desse intervalo, porque também há vida...
Sou isso, enfim...
Apague a luz, feche a porta e deixe de ter barulhos de chinelos no corredor.
Fique eu no quarto só com o grande sossego de mim mesmo.
É um universo barato.

[Conhece alguma coisa que não existe. É marcado por um elemento dúbio, porque é alguma coisa que desejava ser mesclado com o que os outros o fizeram. Reduz a consciência da sua vida. Se entende como não existente. Não me incomode, isso me satisfaz. Apesar de se reconhecer como alguém que é um depósito de retalhos, está bem consigo mesmo. Aparentemente, n~\o existe questão filosófica em destaque.]

CAMÕES

Mudam-se os tempos, mudam-se as vontades,
Muda-se o ser, muda-se a confiança;
Todo o mundo é composto de mudança,
Tomando sempre novas qualidades.

Continuamente vemos novidades,
Diferentes em tudo da esperança;
Do mal ficam as mágoas na lembrança,
E do bem, se algum houve, as saudades.

O tempo cobre o chão de verde manto,
Que já coberto foi de neve fria,
E em mim converte em choro o doce canto.

E, afora este mudar-se cada dia,
Outra mudança faz de mor espanto:
Que não se muda já como soía.

[O que vemos é a expressão renascentista marcada em cada palavra do seu soneto. Camões nos mostra o abrir dos olhos para um mundo no qual nada mais é palpável ou perene, mas, pelo contrário, para ele tudo é passível de mudança imediata, rápida, incontrolável, incontável. Imaginemos hoje em dia. Vemos, nesse soneto, o deslocamento total de perspectivas, baseado no conhecimento, na experiência humana, não só no seu espaço original, mas pelo mundo. Existe uma sensação de mudança muito veloz do seu tempo. Mudança que reverbera, que ecoa e que fica impressa no tempo, no homem, na lembrança e no próprio mundo. Mudança constante.]

Deixa a Vida me Levar - Zeca Pagodinho

Eu já passei
Por quase tudo nessa vida
Em matéria de guarida
Espero ainda a minha vez
Confesso que sou
De origem pobre
Mas meu coração é nobre
Foi assim que Deus me fez...

E deixa a vida me levar
(Vida leva eu!)
Deixa a vida me levar
(Vida leva eu!)
Deixa a vida me levar
(Vida leva eu!)
Sou feliz e agradeço
Por tudo que Deus me deu...

Só posso levantar
As mãos pro céu
Agradecer e ser fiel
Ao destino que Deus me deu
Se não tenho tudo que preciso
Com o que tenho, vivo
De mansinho lá vou eu...

Se a coisa não sai
Do jeito que eu quero
Também não me desespero
O negócio é deixar rolar
E aos trancos e barrancos
Lá vou eu!
E sou feliz e agradeço
Por tudo que Deus me deu...

REFRÃO

[Mesmo com toda a problemática ele está feliz. A realidade é do embate, mesmo. Uma hora a vida vai bem, outra hora não]

TRADUZIR-SE - FERREIRA GULLAR

Uma parte de mim é todo mundo
Outra parte é ninguém, fundo sem fundo
Uma parte de mim é multidão
Outra parte estranheza e solidão
Uma parte de mim pesa, pondera
Outra parte delira
Uma parte de mim almoça e janta
Outra parte se espanta
Uma parte de mim é permanente
Outra parte se sabe de repente
Uma parte de mim é só vertigem
Outra parte linguagem
Traduzir uma parte na outra parte
Que é uma questão de vida e morte
Será arte?

[Temos toda essa composição marcada pelo paradoxo. Ao final, temos, de uma certa maneira, a tradução de tudo o que lemos até agora. O que percebemos é essa questão de vida e morte, que provoca e impulsiona o poeta, que é a de conhecer-se na realidade, conhecer a realidade, transformada em arte, que é a escrita lírica ou a escrita poética.]

Equilíbrio
Eu X Mundo

[A cada leitura feita fomos testemunhas desse diálogo que o Eu-lírico, ou o poeta, travou com o mundo, buscando justamente um equilíbrio, uma definição, uma percepção um pouco mais concreta ou tão concreta quanto possível, na medida em que essa indagação sobre o ser ou sobre a realidade, é permanente, não se fecha (muito menos na figura do poeta) e aí temos visões variadas da realidade, mas sempre partidas daquele que as escreveu.]

- A grande dificuldade para o ser humano é fazer uma leitura de si mesmo.
- A grande dificuldade é cada um tentar se entender para harmonizar o que tem de racional e passional.

Mundo e realidade

[Cada poeta vê o mundo a partir dos seus próprios olhos]

O QUE É O LÍRICO?

A palavra lírica deriva do grego lyrikós, que significa algo referente à lira ou som da lira. Este é um instrumento primitivo de quatro cordas que, por sua musicalidade, tem vínculo com o surgimento da poesia lírica, pois o texto lírico tem, na sua estrutura, musicalidade. Ainda quanto à origem, a poesia lírica tem seus pés fincados em hinos religiosos e na tradição popular.

Gênero literário é uma categoria de composição literária. A classificação das obras literárias pode ser feita de acordo com critérios, sintáticos, fonológicos, formais, contextuais e outros. A distinções entre os gêneros e categorias são flexíveis, muitas vezes com subgrupos. O gênero lírico se faz, na maioria das vezes, em versos e explora a musicalidade das palavras. Entretanto, os outros dois gêneros — o narrativo e o dramático — também podem ser escritos nessa forma, embora modernamente prefira-se a prosa.

Todas as modalidades literárias são influenciadas pelas personagens, pelo espaço e pelo tempo. Todos os gêneros podem ser não-ficcionais ou ficcionais. Os não-ficcionais baseiam-se na realidade, e os ficcionais inventam um mundo, onde os acontecimentos ocorrem coerentemente com o que se passa no enredo da história.

O Eu-lírico é um termo usado dentro da literatura para demonstrar o pensamento geral daquele que está narrando o texto. A junção de todos os sentimentos, expressões, opiniões e críticas feitas pela pessoa superior ao texto, que no caso seria o narrador e/ou a pessoa central ao qual o texto está se referindo. O Eu-lírico é o "eu" que fala na poesia. É geralmente muito usado em textos de gênero lírico, que são caracterizados por expressar, mas não necessariamente, os sentimentos do autor. O EU representa o mundo ao redor a partir de sua subjetividade. O sujeito, na literatura, surge com o lírico. É, no lírico, que esse sujeito deixa aflorar os seus sentimentos mais recônditos.

[Os poetas possuem linguagem totalmente subjetiva]

A lírica está ligada à livre imaginação, onde a emoção supera o pensamento.

“Poesia é quando uma emoção encontra seu pensamento e o pensamento encontra palavras.” (Robert Frost, 1874-1963)

“A poesia é o eco da melodia do universo no coração dos humanos.” (Rabindranath Tagore, 1861-1941)

“A poesia é o sentimento que sobra ao coração e sai pela mão.” (Carmen Conde, 1907-19960)

Diante do universo da representação vai se constituir progressivamente um universo em expansão. À restituição do mundo em sua forma narrada (o relato, a narrativa) ou dialogada (o teatro), responderá uma relação pessoal das impressões suscitadas pelo mundo, uma exploração íntima dos sentimentos, expressa através de uma voz julgada espontânea, [...]. Tomando-se ele próprio como assunto, o poeta abandona o domínio da imitação da realidade em troca daquele da introspecção individual.
Essa tendência literária que negligencia a atitude de tomar o mundo como modelo, que ignora as expectativas do auditório, que parece traduzir, de maneira incontrolada, a interioridade do criador e reproduzir uma fala que ele parece dirigir a si mesmo, corresponde àquilo que será chamado de lirismo (STALLONI, 2003, p. 135).

TABACARIA – Álvaro de Campos

Não sou nada.
Nunca serei nada.
Não posso querer ser nada.
À parte isso, tenho em mim todos os sonhos do mundo.

Janelas do meu quarto,
Do meu quarto de um dos milhões do mundo que ninguém sabe quem é
(E se soubessem quem é, o que saberiam?),
Dais para o mistério de uma rua cruzada constantemente por gente,
Para uma rua inacessível a todos os pensamentos,
Real, impossivelmente real, certa, desconhecidamente certa,
Com o mistério das coisas por baixo das pedras e dos seres,
Com a morte a por umidade nas paredes e cabelos brancos nos homens,
Com o Destino a conduzir a carroça de tudo pela estrada de nada.

PRINCIPAIS MANIFESTAÇÕES DRAMÁTICAS

Estou hoje vencido, como se soubesse a verdade.
Estou hoje lúcido, como se estivesse para morrer,
E não tivesse mais irmandade com as coisas
Senão uma despedida, tornando-se esta casa e este lado da rua
A fileira de carruagens de um comboio, e uma partida apitada
De dentro da minha cabeça,
E uma sacudidela dos meus nervos e um ranger de ossos na ida.
Estou hoje perplexo, como quem pensou e achou e esqueceu.
Estou hoje dividido entre a lealdade que devo
À Tabacaria do outro lado da rua, como coisa real por fora,
E à sensação de que tudo é sonho, como coisa real por dentro.

Falhei em tudo.
Como não fiz propósito nenhum, talvez tudo fosse nada.
A aprendizagem que me deram,
Desci dela pela janela das traseiras da casa.
Fui até ao campo com grandes propósitos.
Mas lá encontrei só ervas e árvores,
E quando havia gente era igual à outra.
Saio da janela, sento-me numa cadeira.
Em que hei de pensar?

A lírica está ligada à livre imaginação, onde a emoção supera o pensamento.

ANTIGUIDADE CLÁSSICA:
- Lírica pessoal: baseada no próprio indivíduo, na sua visão do mundo. O poeta fala de si, dos seus sentimentos e de suas ideias.
- Lírica impessoal: o poeta se coloca no outro. O poeta expressa os sentimentos da coletividade. É aquele que não se envolve e trata dos assuntos superficialmente.

A Valsa – Cecília Meireles – lírica pessoal

Fez tanto luar que eu pensei nos teus olhos antigos
e nas tuas antigas palavras.
O vento trouxe de longe tantos lugares em que estivemos,
que tornei a viver contigo enquanto o vento passava.

Houve uma noite que cintilou sobre o teu rosto
e modelou tua voz entre as algas.
Eu moro, desde então, nas pedras frias que o céu protege
E estudo apenas o ar e as águas.

Coitado de quem pôs sua esperança
nas praias fora do mundo...
- Os ares fogem, viram-se as águas,
mesmo as pedras, com o tempo, mudam

VOZES D’ÁFRICA – Castro Alves – lírica impessoal

Deus! ó Deus! onde estás que não respondes?
Em que mundo, em qu'estrela tu t'escondes
Embuçado nos céus?
Há dois mil anos te mandei meu grito,
Que embalde desde então corre o infinito...
Onde estás, Senhor Deus?...

Qual Prometeu tu me amarraste um dia
Do deserto na rubra penedia
— Infinito: galé! ...
Por abutre — me deste o sol candente,
E a terra de Suez — foi a corrente
Que me ligaste ao pé...

O cavalo estafado do Beduíno
Sob a vergasta tomba ressupino
E morre no areal.
Minha garupa sangra, a dor poreja,
Quando o chicote do simoun dardeja
O teu braço eternal.

Minhas irmãs são belas, são ditosas...
Dorme a Ásia nas sombras voluptuosas
Dos haréns do Sultão.
Ou no dorso dos brancos elefantes
Embala-se coberta de brilhantes
Nas plagas do Hindustão.

A Europa é sempre Europa, a gloriosa! ...
A mulher deslumbrante e caprichosa,
Rainha e cortesã.
Artista — corta o mármor de Carrara;
Poetisa — tange os hinos de Ferrara,
No glorioso afã! ...
Sempre a láurea lhe cabe no litígio
....................................

Mas eu, Senhor!... Eu triste abandonada
Em meio das areias esgarrada,
Perdida marcho em vão!
Se choro... bebe o pranto a areia ardente;
talvez... p'ra que meu pranto, ó Deus clemente!
Não descubras no chão...

Não basta inda de dor, ó Deus terrível?!
É, pois, teu peito eterno, inexaurível
De vingança e rancor?...
E que é que fiz, Senhor? que torvo crime
Eu cometi jamais que assim me oprime
Teu gládio vingador?!
........................................
Foi depois do dilúvio... um viadante,
Negro, sombrio, pálido, arquejante,
Descia do Arará...
E eu disse ao peregrino fulminado:
"Cam! ... serás meu esposo bem-amado...
— Serei tua Eloá. . . "

Cristo! embalde morreste sobre um monte
Teu sangue não lavou de minha fronte
A mancha original.
Ainda hoje são, por fado adverso,
Meus filhos — alimária do universo,
Eu — pasto universal...
Hoje em meu sangue a América se nutre
Condor que transformara-se em abutre,
Ave da escravidão,
Ela juntou-se às mais... irmã traidora
Qual de José os vis irmãos outrora
Venderam seu irmão.

Basta, Senhor! De teu potente braço
Role através dos astros e do espaço
Perdão p'ra os crimes meus!
Há dois mil anos eu soluço um grito...
escuta o brado meu lá no infinito,
Meu Deus! Senhor, meu Deus!!...

São Paulo, 11 de junho de 1868.

A palavra lírica deriva do grego lyrikós, que significa algo referente à lira ou som da lira. Este é um instrumento primitivo de quatro cordas que, por sua musicalidade, tem vínculo com o surgimento da poesia lírica, pois o texto lírico tem, na sua estrutura, musicalidade.

Ainda quanto à origem, a poesia lírica tem seus pés fincados em hinos religiosos e na tradição popular.

Para que o leitor penetre no espaço da poesia é preciso que, de coração aberto, num estado de compreensão, de entendimento claro daquilo perceba o que lhe é apresentado. Assim, ele atinge o entendimento, passando pelo plano da emoção. A sua sensibilidade tem que estar desperta. Afinal de contas, antes de entender ele tem que sentir. Portanto, a alma tem que estar desarmada e afinada com a alma do poeta. Há um estado de receptividade por parte do leitor.

EU-LÍRICO EU-BIOGRÁFICO

COMUNHÃO

FAROESTE CABOCLO

E João não conseguiu o que queria
Quando veio pra Brasília, com o diabo ter
Ele queria era falar pro presidente
Pra ajudar toda essa gente que só faz...

Legião Urbana

EXERCÍCIOS DO SIMULADO

4a Questão (Ref.: 201505952053) Pontos: 1,0 / 1,0
Luís de Camões é considerado uma das maiores figuras da literatura em língua portuguesa e um dos grandes poetas do Ocidente. Abaixo é reproduzida a estrofe de um de seus sonetos mais famosos. Tanto do meu estado me acho incerto, Que em vivo ardor tremendo estou de frio; Sem causa, juntamente choro e rio, O mundo todo abarco e nada aperto. É tudo quanto sinto, um desconcerto; Da alma um fogo me sai, da vista um rio; Agora espero, agora desconfio, Agora desvario, agora acerto. A estrofe citada pode ser tida como um exemplo do gênero

Épico, pois o sofrimento imposto ao eu-lírico é sobre-humano. Impossível de aguentar.
Dramático, pois é, nitidamente uma cena que vai ser reproduzida. Uma cena pensada, tendo-se em vista o teatro.
Argumentativo, pois existe uma nítida vontade de convencer o leitor.
Lírico, pois o poeta fala de seus sentimentos, sendo a expressão máxima da sua subjetividade voltada para ele mesmo.
Narrativo, pois há um personagem que confessa seus sentimentos. Há início, meio e fim

8a Questão (Ref.: 201505952056) Pontos: 1,0 / 1,0
Qual das conceitos abaixo apresentados melhor define a lírica pessoal?

A lírica pessoal é aquela em que o poeta fala de si, dos seus sentimentos e de suas ideias. A expressão máxima de sua subjetividade está direcionada para ele mesmo.
A lírica pessoal é aquela em que o que importa é a capacidade do poeta em construir uma narrativa compatível com a realidade
A lírica pessoal é aquela em que o poeta reproduz o cotidiano da sua cidade com um rigor detalhista.
A lírica pessoal é aquela em que o poeta não fala sobre sentimento algum, nem dele, nem dos outros
A lírica pessoal é aquela em que o poeta fala do sentimento do povo de seu país, enquanto relaciona esses sentimentos ao folclore

Exibições: 3

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