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Poema ao acaso

CENPESJUR

O MERCADOR DE VENEZA

Sílvia M L Mota

O mercador de Veneza é uma peça escrita por William Shakespeare, acredita-se, entre 1596 e 1598. Originalmente uma comédia dos costumes e da tradição, trata-se de um encontro entre literatura, direito e filosofia, pois assinala um drama romanesco em questões sócio-jurídicas numa época distinguida pela ascensão do comércio e da burguesia, no contexto do Renascimento. A obra é objeto de inúmeras reflexões acerca do seu conteúdo temático. Traz em seu enredo a história de três indivíduos de características peculiares ao século XVI: o nobre falido, o rico comerciante e o agiota mesquinho, respectivamente, Bassânio, Antônio e Shylock.

Bassânio é amigo pessoal do mercador veneziano Antônio, que deseja conquistar Portia, jovem da nobreza, cuja mão é disputada por homens poderosos. Sendo assim, Bassânio recorre ao amigo sob o desígnio de tomar por empréstimo três mil ducados para custear os dispêndios da viagem e garantir projeção diante da jovem. Antônio não pode dispor das suas riquezas por estarem essas em alto mar, nos seus navios. Mas, por ter nome honrado, oferece-se por fiador de Bassânio, caso esse consiga crédito com um dos agiotas de Veneza.

O primeiro a ser procurado por Bassânio é Shylock, inimigo do mercador Antônio, por ter sido insultado por esse publicamente diversas vezes, pelo simples fato de ser judeu. Shylock aceita emprestar o ambicionado valor, sem cobrar ágio, por três meses, mas exige que Antônio ofereça por garantia uma libra exata da própria carne - do peito, próximo do coração - a ser reclamada caso haja inadimplemento da obrigação e sendo essa uma prestação insubstituível. No anseio de socorrer o amigo, Antônio aceita e assina contrato, com reconhecimento público, frente a um notário.

Representados sob a ótica do ódio, expressão dos preconceitos étnicos da época, os pretendentes estrangeiros de Portia são descritos com desprezo através de características estereotipadas de suas origens. Bassânio parte para Belmont e submete-se à prova exigida pelo pai de Portia: a escolha entre três cofres – ouro, prata e cobre. Se encontrasse no cofre escolhido a imagem da bela jovem, poderia desposá-la; mas não fosse bem-aventurado na escolha, sairia sem nada proferir e impedido, para sempre, de contrair casamento. Bassânio escolhe com exatidão e adquire o direito de casar-se com a amada.

Nesse meio tempo, Jéssica, a filha de Shylock, foge com Lourenço e leva consigo joias e dinheiro do pai, num evento delineado pelo amante e por seus amigos, que também eram amigos de Antônio e Bassânio. Shylock sai pelas ruas de Veneza, em desespero, mas não alcança nem a filha nem as riquezas. Antônio, por sua vez, recebe a notícia de que seus navios naufragaram, deixando-o sem condições de honrar o compromisso assumido com Shylock, que, de plano, reclama sua garantia. O caso vai parar na Corte de Veneza.

Lourenço e Jéssica juntam-se a Bassânio e Portia e aos criados Graciano e Nerissa, também apaixonados. Casam-se e os noivos partem para salvar Antônio. Suas esposas seguem-nos, sem que os maridos soubessem, para ajudá-los na tarefa.

No Tribunal, Shylock faz-se irreduzível, embora toda a Veneza seja-lhe contra. Veneza levanta-se contra o explorador das misérias alheias, não por amor a Antônio, mas por causa do seu ódio racial contra os judeus, que, reduzidos à pobreza e à escravidão, eram postos à margem da sociedade, nos guetos. Hipocrisia humanística. A intolerância aos judeus exibia um embasamento econômico, porque Veneza fervilhava e despontava célere no cenário comercial Renascentista. Os juros eram justos até em casos de empréstimos de pai para filho. Mas, o ato de lucrar tão e somente por dispor de recursos, aproveitando-se da desgraça pecuniária alheia como um meio de vida, era questionável, mormente para a mentalidade cristã. Mesmo assim, Antônio submetera-se à usura, em nome da amizade por Bassânio.

Os devedores oferecem a Shylock a quantia duplicada e reduplicada, mas o judeu não aceita nenhum acordo. A Corte espera a chegada do advogado Belário, primo de Portia, que a envia em seu lugar, travestida de homem, sob o nome de Baltasar. Em sua companhia segue Nerissa, também disfarçada de escrivão. Portia, sob as vestes de Baltasar, tenta demover Shylock dos seus propósitos, mas não é bem sucedida. Por fim, exara a sentença - Shylock tem direito a uma libra exata da carne de Antônio.

Quando o judeu, vitorioso, exibe uma balança e afia sua espada para retirar a libra de carne do peito de Antônio, Baltasar retifica - seu direito não se estende ao sangue do condenado, nem pode ser cobrado em falta ou em excesso. Se uma só gota de sangue cristão rolasse, segundo as leis de Veneza, Shylock teria suas terras e bens confiscados. O credor retrocede e aceita a proposta dos devedores - o dobro do combinado. Baltasar o previne de que somente poderá cobrar aquilo a que tem direito. Frente à novidade desalentadora, o agiota desiste da causa, mas é tarde, pois se vê condenado por atentar contra a vida de um veneziano. Sendo estrangeiro, perderá não somente os bens, mas sua própria vida ficará à mercê do Doge.

Antônio intervém e advoga em favor do judeu, que sai cabisbaixo, humilhado, prostrado e espoliado e com a metade da sua fortuna. Bassânio e Graciano, agradecidos, ainda que relutantes, dão os anéis de compromisso, presente das suas esposas, oferecidos debaixo de muitas promessas de que nunca deles se arredariam.

Em companhia de Antônio, de volta a Belmont, os jovens recém-casados enfrentam a suspeita das esposas, mas tudo se aclara após Antônio comprometer sua própria alma em favor de Bassânio, pela certeza de que, conscientemente, o esposo de Portia não quebraria jamais qualquer promessa. Somente então Portia concede seu perdão a Bassânio e revela a todos o jogo de máscaras por ela e Nerissa montado. Todos se recolhem e Antônio recebe a notícia de que seus navios chegaram em paz a Veneza.

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