Análise literária de alguns elementos do poema - O Corvo, de Edgar Allan Poe

O Corvo, de Edgar Allan Poe, foi publicado em 1845 e é um dos poemas de língua inglesa mais aclamados e importantes da literatura mundial. Ele narra o encontro de um homem enlutado e perturbado pelo falecimento da sua amada, Lenore, com um corvo que entra inusitadamente no seu cômodo durante uma noite fria de inverno. Ao conversar com o animal que aparenta ter poderes assombrosos, ele descobre que o pássaro personifica uma espécie de destino trágico e fatalista, ao assinalar repetidamente a resposta de “nevermore” (nunca mais) para algumas questões cruciais que o atormentam. O homem mergulha cada vez mais na sua tristeza ao constatar que o corvo não abandona o seu cômodo, assim como aquele luto, que parece destinado a permanecer para sempre dentro de si.

Na obra existem dois personagens; o narrador (eu-lírico) e um corvo. Para além dos dois, há a referência a Lenore (falecida), a amada do eu-lírico que é um “narrador personagem”.

Na narração, o tempo é “psicológico”, já que é aquele que está dentro do personagem e não pode ser medido cronologicamente.

Existe uma relação dialética entre o interior de um cômodo sombrio (ambiente fechado) onde está o personagem e o exterior. O espaço é um dos elementos que desencadeia o fazer poético, através das imagens que se fundem na relação do ser com o espaço à sua volta. A interioridade é tema e conduz-nos à imensidão íntima do ser humano, diante de um mundo que traz consigo uma carga emocional densa e profunda, associada a uma sensação real de infinito. Os dois primeiros versos da segunda estrofe expõem a oposição entre frio e calor: “Ah, que bem disso me lembro! Era no frio dezembro,/E o fogo, morrendo negro, urdia sombras desiguais”. Esses dois versos mostram, no entanto, que apesar do contraste entre a gelidez de fora e o fogo de dentro, os dois ambientes apresentam a mesma atmosfera sombria e carregada de negatividade.

A ambientação do poema é feita através da hora e do tempo; meia-noite de uma noite agreste, fria e sombria do mês de dezembro: “Numa meia-noite agreste, quando eu lia, lento e triste,/Mas a noite era infinita, a paz profunda e maldita”. Um tempo indefinido e sombrio. Uma noite infinita, de paz profunda e maldita, como se o tempo tivesse parado para sempre naquele instante.

O corvo personifica a intransigência da morte e o seu impacto sobre o personagem, ao trazer para o poema um elo entre o eu-lírico e a sua amada falecida, Lenore, explicitando o medo íntimo e subconsciente que todos nós sentimos da morte e dos seus mistérios. Assim, o corvo representa, na obra, o estado interior da alma do eu-lírico.

Em um dos episódios realizados e filmados pelo cineasta japonês Akira Kurosawa – “Corvo”, do filme Sonhos, é nos apresentada, curiosamente, uma pequena história sobre um jovem visitante e pintor a um museu de arte. Ao percorrer uma galeria de obras de Van Gogh, ele decide fixar-se num dos trabalhos. Nesse instante, e como num compasso de mágica, o visitante entra numa espécie de mundo real idealizado pelas imagens do pintor, até chegar a conhecer o próprio Van Gogh. Após um curto diálogo entre os dois, o artista aparece ao longe seguindo apressado por um longo caminho bucólico e ensolarado. O rapaz tenta segui-lo, mas nesse instante aparecem muitos corvos grasnando em várias direções que parecem impedir que o rapaz continue o seu caminho.

Esta história não tem, aparentemente, nenhuma relação com o poema de Edgar Allan Poe, a não ser na semelhança de ambos adotarem o corvo (animal) como elemento crucial e simbólico de valor trágico e sinistro, associado a um destino ou desfecho do enredo. Partindo da premissa de que “a função da leitura é abrir caminhos, reformular experiências, gerar novos significados (criando novos textos)” (MARTINS, 2011, p.3) podemos constatar que, apesar das ambientações quase antagônicas; no poema, a ação desenvolve-se num clima de tensão, pesado e fatalista, ao passo que no filme de Kurosawa o ambiente é todo ele iluminado pelas cores fortes e vibrantes do mestre Van Gogh que nos transportam para um mundo onírico, desejado, fantasioso, interessante e cheio de significados. O simbolismo associado ao corvo está patente em ambas as histórias como um elemento que transcende e polariza sentimentos que parecem estar incorporados no plano real e subconsciente dos homens.

mongiardimsaraiva

(texto & imagem)

 

 

 

 

 

 

 

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